Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 03/07/2021

“Salvem o sangue do povo brasileiro”, foi o clamor do cartunista mineiro, hemofílico e soropositivo, Henfil em face das doações remuneradas e sem critérios, da sorologia precária, bem como da proliferação de doenças como a “Aids”, que firmaram o sistema transfusional brasileiro novecentista. Esse apelo foi atendido pela Constituição de 1988, a qual proibiu a comercialização do sangue. Contudo, apesar da evolução, milhões de bolsas são perdidas todos os anos devido ao individualismo associado à ausência de uma conscientização coletiva, assim como ao estigma que marginaliza e impede a doação pela população homoafetiva.

Em primeira análise, é indubitável que foi preciso, lamentavelmente, o surgimento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida para que o incansável ativismo pela doação voluntária e gratuita findasse no pós-redemocratização. Entretanto, a mácula imposta pela denominada, à época, “peste gay” coíbe o ato aos homossexuais e desperdiça cerca de 18 milhões de litros de sangue ao ano. Diante disso, em 2020, o Supremo Tribunal Federal derrubou as restrições inconstitucionais que impediam homens gays e bissexuais de serem doadores. No entanto, inúmeros hemocentros persistem no pressuposto homofóbico de que ser homossexual é estar doente. Por conseguinte, ainda que a ignorância resista, o Brasil vem mostrando que nunca é tarde para abandoná-la.

Em segunda análise, cabe ressaltar que por décadas as idas aos bancos de sangue foram motivadas não pelo espírito cívico e pela solidariedade, mas pelo capital. Isto posto, embora o país seja referência em doação de sangue na América Latina, boa parte dos doadores são de reposição, ou seja, o fazem por razões pessoais, a fim de ajudar um conhecido. Nesse viés, em seu livro “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor português José Saramago indaga-se: é dessa massa que somos feitos? Metade de indiferença, metade ruindade? Ante o exposto, responder positivamente seria ignorar os milhares de doadores voluntários, porém é fato que o altruísmo se faz urgente. De modo que, em uma nação que doa por almejar retorno, a doação de sangue estará longe de ser vista enquanto uma ação cidadã.

À vista disso, depreende-se a necessidade da população em assimilar a imensa significância incutida em um ato tão simples. Portanto, urge que as mídias de grande impacto, televisivas e virtuais, por meio de seus canais realizem debates e propagandas, em que profissionais da saúde, mediante uma linguagem simples, instruam o público acerca do processo, elucidem mitos e desconstruam estigmas que fundamentam leis excludentes. De modo a mitigar a inobservância da imprensa e criar uma cultura em que se doe periodicamente. De tal forma, o brado nos versos de Henfil continuará a ecoar.