Obstáculos para a doação de sangue no Brasil

Enviada em 04/11/2021

A terceira temporada de “Sob Pressão”, série brasileira, retrata a realidade enfrentada pelo hemocentro do hospital local: a ausência de bolsas de sangue. Nesse sentido, a trama explora a deterioração da ocorrência de inúmeros processos, como cirurgias e exames. Fora da ficção, é fato que a situação apresentada na série pode ser relacionada ao hodierno cenário brasileiro que, em razão da propagação de mitos e do individualismo, intensifica os desafios para a doação de sangue no Brasil. Logo, são imperativas ações estatais e sociais para estimular esse ato de solidariedade.

Em primeiro plano, é imperioso salientar que substancial parcela da população -ainda- permanece alheia de conhecimentos acerca do processo de doação sanguínea, o que favorece a assimilação de  inúmeros mitos, como o de que o doador perde peso ou contrai doenças durante a transfusão. Sob esse viés, o sociólogo espanhol Manuel Castells aborda, em suas inúmeras palestras, que o mundo vive " um momento de ataque à razão e de posições irracionais contra a ciência", ou seja, independente do fato ser comprovado cientificamente, ele não é considerado. Desse modo, percebe-se que a propagação de mitos demonstra o pensamento de Castells, haja vista que eles- já estruturados em grande parte da população- apesar de serem desmistificados pela ciência, ainda são considerados pelo corpo social, o que dificulta uma das práticas mais relevantes da humanidade: a doação de sangue.

Ademais, o individualismo exacerbado da sociedade moderna impossibilita o recrudescimento do número de doadores voluntários- aqueles que doam de forma regular. De acordo com Sérgio Buarque de Holanda, em sua obra “Raízes do Brasil”, o brasileiro é caracterizado como um “Homem Cordial”, o qual prioriza o privado em detrimento do coletivo, e explicita a indiferença- materializada na figura do doador de reposição, o qual doa sangue somente para familiares ou conhecidos em situação de urgência- às necessidades alheias. Dessa forma, é imprescindível uma mudança de postura da sociedade para o exercício desse dever social capaz de salvar vidas.

Portanto, a fim de combater os mitos- gerados pela desinformação- que permeiam o processo de doação sanguínea, urge que o Ministério da Saúde, órgão responsável pela assistência à saúde dos brasileiros, invista, por meio da realização de campanhas publicitárias, no esclareciemento acerca do que é verídico ou não em tal processo. Somado a isso, compete às escolas e às famílias, instituições formadoras de opinião, a adoção de uma postura crítica em relação ao individualismo, enfatizando a importância da coletividade no crescimento, por exemplo, do número de doadores voluntários. Somente assim, poder-se-á combater os obstáculos que dificultam a doação de sangue no Brasil e contribuir para que o drama narrado em “Sob Pressão” seja, em breve, apenas ficção.