Obstáculos para a doação de sangue no Brasil
Enviada em 19/11/2021
Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “No Meio do Caminho”, descreve, de forma metafórica, os obstáculos enfrentados pelo indivíduo em sua trajetória de vida. Analogamente, percebe-se a existência de desafios para a doação de sangue no Brasil, caracterizados principalmente pela ausência de uma ampla rede de centros de coleta e por preconceitos e ignorâncias que ainda perduram na sociedade e que precisam ser combatidos.
Partindo desse pressuposto, nota-se que, no Brasil, a concentração de hemocentros para realizar a coleta de sangue dos doadores está restrita às grandes cidades e às principais regiões administrativas. Dessa forma, a população interiorana e a que vive nas regiões norte e nordeste do país enfrentam obstáculos geográficos para conseguir doar sangue, fator que desestimula a ação e contribui para a escassez dos bancos desse recurso. Conexo a isso, é perceptível que o Estado falha com o seu papel em garantir a distribuição de unidades coletoras pelo país, fator impulsionado pela escassez de investimento em saúde pública.
Ademais, a perpetuação de tabus acerca da doação de sangue é um elemento que impacta diretamente na problemática debatida. A falta de acesso à informação leva muitas pessoas a acreditarem em discursos do senso comum e evitarem ir aos hemocentros, alimentando uma conjuntura na qual a população é ciente dos seus atos e tem condições de alterá-los, mas fatores pré-existentes no tecido social os impedem. Isso foi descrito pelo sociólogo Anthony Giddens a partir da “Teoria da estruturação”, na qual o pensador enfatiza que o ser humano é capaz de transitar entre as ideias do seu meio social por ter a compreensão do seu cotidiano. Diante disso, comprova-se que as pessoas não estão condicionadas ao preconceito e à falta de informação, podendo contornar essa realidade.
Perante o exposto, identifica-se o estigma social e a má distribuição de hemocentros como os principais obstáculos para a doação de sangue no Brasil, além da necessidade de solucioná-los. Para isso, é necessário que o Governo Federal, intermediado pelos Ministérios da Saúde e da Comunicação, inicie, em parceria com o Sistema Único de Saúde, uma campanha nacional sobre doação de sangue, disseminando informações verdadeiras e combatendo as falsas, de modo a desconstruir os tabus ainda presentes na sociedade brasileira. Além disso, o Congresso Nacional (em seu papel de Poder Legislativo) deve estabelecer diretrizes, por meio de projeto de lei, que garanta a destinação de maiores verbas para a construção de hemocentros em localidades mais afastadas do centro urbano do Brasil, a fim de cessar a falta deles, facilitando as doações.