Os desafios da ausência de consciência de privilégios na sociedade

Enviada em 13/08/2024

José Saramago usou o conceito de “cegueira social” para criticar o comportamento egoísta da sociedade. Na realidade brasileira, a crítica de Saramago é verificada na questão da ausência de consciência de privilégios na sociedade, visto que apresenta diversos desafios para o enfrentamento de sua invisibilidade. Dessa forma, a problemática persiste devido a falha educacional e às raízes históricas do país.

Em primeira análise, é válido destacar a relevância da lacuna no sistema de educação nessa questão. Isso acontece porque, desde o século XX, com a implementação de um formato tradicionalista de ensino pelo ex-presidente Vargas, cristalizou-se um modelo educacional que negligencia o aprendizado de temas transversais, a exemplo de concepções acerca dos privilégios sociais existentes no Brasil. Nessa perspectiva, há uma negação dos privilégios característicos de certos grupos sociais, cujas conquistas são percebidas como puro mérito pessoal. Como consequência disso, perde-se o princípio da isonomia essencial nas democracias.

Outrossim, a permanência histórica é fator importante como constituinte desse imbróglio. Nesse sentido, consoante ao pensamento do antropólogo Claude Lévi-Strauss, só é possível compreender adequadamente as ações coletivas por meio do entendimento dos eventos históricos. Desse modo, essa questão apresenta raízes indissociáveis à história brasileira - que foi marcada pela escravidão e pelo colonialismo etnocentrista – e que ainda se faz presente no cotidiano, seja na existência de fortes preconceitos sociais, seja na falta de oportunidades econômicas e direitos básicos para certos grupos.

Faz-se necessário, portanto, que meios sejam criados para intervir nesse óbice. Logo, o Governo Federal - órgão responsável pela harmonia social - deve estabelecer políticas públicas que garantam o acesso dos grupos desprivilegiados a boas oportunidades de emprego e ensino, por meio do aumento da política de cotas, a fim de combater as raízes históricas presentes nessa questão. Além disso, cabe a mídia promover debates acerca do tema. Dessarte, o Brasil poderá deixar de lado a cegueira social.