Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil

Enviada em 28/10/2019

Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou, na obra “Os retirantes”, uma família que sai de uma região a outra em busca de condições melhores de vida. Com o objetivo de evidenciar o cotidiano do Brasil, o autor denuncia os problemas sociais do país. Semelhante ao cenário, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca da inclusão de pessoas com autismo na sociedade. As demandas para findar o preconceito com esse grupo, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e à lenta mudança da mentalidade social intrínsecas ao impasse.

A princípio, a negligência do Estado é um fator relevante quando observamos os desafios encontrados autistas. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, afirma que um governante tende a tomar decisões que mantenham sua posição de liderança. Tendo isso em vista, é esperado que questões como políticas que auxiliam na inserção dos portadores do transtorno, que tem pouco apelo eleitoral, ganhem menos investimento do governo, uma vez que existem pautas mais populistas. Desse modo, o poder encontrado pelas autoridades ao se firmarem em suas posições não os incentiva a investir em tratamento e diagnóstico no sistema público e pesquisas na área. Assim, a manutenção da posição dos gestores ocorre no Brasil às custas da qualidade de vida de muitas famílias.

Outrossim, além do descaso do Poder Público, há como agravante valores perpetuados na sociedade brasileira. Consoante à Teoria do Habitus, de Pierre Bourdieu, nossas práticas são resultado de condições culturais específicas de um corpo social. Dessarte, o preconceito e a intolerância com o transtorno que ocorre repetidamente há décadas, ainda ecoa na atualidade, o que gera um ciclo que deve ser desfeito. Hoje, a exclusão social dos autistas ainda possui raízes e afeta negativamente na busca por qualidade na vida do grupo. Desse modo, uma mudança nos valores da coletividade é essencial para que a desigualdade não seja um problema a ser enfrentado ao longo das gerações.

Depreende-se, portanto, que a questão é grave e deve ser findada. Para isso, cabe ao governo criar postos de denúncia específicos para casos de exclusão social dos autistas, que gere maior movimentação para criação de leis mais abrangentes e fiscalizações mais rigorosas. Ademais cabe à escola ampliar a visão de mundo dos estudantes por meio da inclusão de palestras específicas ministradas por psicólogos sobre a importância da tolerância ao diferente. Assim, os alunos serão instruídos a reconhecerem o preconceito e a combatê-lo, a fim de que, através da reflexão do ambiente, eles possam contribuir para mudanças e melhorias na sociedade. Dessa forma, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.