Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil

Enviada em 05/07/2020

A série “Atypical” discorre sobre a trajetória de Sam, um jovem de 18 anos diagnosticado com autismo que, apesar de encontrar dificuldades para estabelecer um amplo círculo social devido à sua condição, tenta encontrar uma namorada diante do impasse da opressão proveniente da sociedade. Não obstante essa obra pertencer ao universo ficcional, é fato que a perspectiva abordada por ela representa os desafios da inclusão de pessoas autistas no Brasil. Nesse sentido, é primordial analisar o modo como a associação dessa minoria a uma identidade negativa agrava essa situação problemática, bem como os desdobramentos desse aspecto na ineficaz garantia de direitos a esses indivíduos.

É imperioso ressaltar, em primeiro plano, que as relações interpessoais são, reiteradamente, marcadas pela atribuição de uma imagem pejorativa a grupos que não se adequam à normatividade imposta pela sociedade, como é o caso dos autistas. Tal fenômeno é ratificado pelo conceito de estigma social, que foi proposto pelo sociólogo canadense Erving Goffman e evidencia que o sentimento de inferioridade proveniente da associação de uma minoria a uma identidade negativa fomenta a opressão e a marginalização sociais dessa parcela da população. Por conseguinte, infere-se que a estigmatização constitui um entrave para a plena inclusão desses indivíduos na sociedade, o que resulta em situações como a enfrentada pelo personagem Sam na série “Atypical”.

Ademais, denota-se que o problema supracitado se apresenta como um impasse para a garantia de fundamentos constitucionais aos autistas, a qual representa um dos pilares intrínsecos ao estabelecimento de uma democracia. Essa questão pode ser relacionada ao pensamento do sociólogo britânico Thomas Humphrey Marshall, que definiu a cidadania como a garantia plena de todos os direitos civis, políticos e sociais à totalidade dos cidadãos. Nessa perspectiva, percebe-se que essa minoria não usufrui plenamente da cidadania, haja vista que a estigmatização a que ela está submetida corrobora, entre outros fatores, a existência do bullying escolar, que dificulta a garantia da educação de qualidade para esses indivíduos e a igualdade entre estes e o restante da população.

Depreende-se, portanto, que a atribuição de uma imagem pejorativa às pessoas com autismo dificulta o exercício da cidadania por parte destas. Posto isso, com vistas a desconstruir o paradigma de exclusão social dos autistas, urge que o Ministério da Educação crie, por meio de parcerias com redes de televisão, campanhas que deverão ser expostas nos intervalos das programações televisivas. Essa medida deverá explicitar a relação entre a associação de uma identidade negativa a essa minoria e a ineficaz garantia de direitos a ela e promover a empatia nos telespectadores. Somente assim, poder-se-á amenizar o problema, estabelecendo um contraste entre a realidade e a série “Atypical”.