Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil
Enviada em 11/09/2020
A pintura renascentista “O navio dos loucos”, elucida o afastamento dos desviantes psíquicos do convívio social na Antiguidade. Analogamente, fora da tela, a pobre visibilidade e socialização dos autistas caracteriza a manutenção de tal desamparo nefasto. Nesse sentido, seja pela escassa informação a cerca dos espectros ou pelo latente despreparo das instituições sociais, o não acolhimento dos portadores de autismo fere os direitos individuais e carece de cuidados.
Previamente, é necessário salientar o amplo desconhecimento sobre a síndrome e sua relação com a não-inserção e o preconceito. De acordo com dados da Universidade de São Paulo, apenas em 1993 o autismo foi adicionado a classificação internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde. Dessa forma, a quantidade de pesquisas em diagnóstico, tratamento, e, consequentemente, a oferta de informações à população são escassas. Segundo o psicanalista Sigmund Freud, o novo sempre desperta resistência. Desse modo, a ignorância a respeito dos autistas fortalece a exclusão na sociedade.
Ademais, o amplo despreparo dos órgãos sociais para lidar com o diferente contribui ainda mais para o déficit em inclusão. Conforme o pensamento do filósofo Pierre Bourdieu, a escola constitui um aparelho de reprodução de poderes no mundo contemporâneo. Assim, a ausência de conscientização dos alunos e a baixa carga horária de matérias que abordem as diferenças, como filosofia e sociologia, perpetua tanto o bullying quanto a sensação de não pertencimento dos digressivos. Dessa maneira, a lógica segregatória da obra do Renascimento faz-se presente, sendo confirmada também pela recente série “Atypical”, da Netflix, que ilustra os entraves de um autista ao entrar na escola. Logo, fazer das associações sociais locais inclusivos e seguros é mister para a inserção dos especiais.
Portanto, ações são necessárias para promover maior socialização dos espectros. Inquestionavelmente, o aumento de pesquisas neurológicas e psíquicas, por meio do maior destino de verbas as universidades públicas pelo Superministério da Saúde, fazendo uso do respectivo Fundo Nacional de Saúde, é essencial a fim de tratar melhor os pacientes e instruir a sociedade mediante a propagandas das descobertas. Além disso, a criação de uma ementa legislativa, por intermédio do poder executivo federal, que torne obrigatório a realização de palestras e aulas sobre as variáveis mentais nos ensinos fundamentais e médios, é fundamental no intuito de transformar os ambientes em confortáveis aos portadores de autismo. Apenas assim evitaremos a continuidade de um equivoco tão danoso, semelhante ao retratado na “embarcação dos delirantes”.