Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil
Enviada em 30/11/2020
Na obra “O Extraordinário”, por R.J. Palácio, é retratada a trajetória de Auggie, um portador de uma deformidade facial. O protagonista, que recebia educação familiar, é matriculado em uma nova escola e, graças à sua condição que o diferenciava nitidamente do resto dos alunos, Auggie se torna vítima de assédio e segregação pelo corpo discente da instituição. Infelizmente, análoga à ficção, a realidade de indivíduos com transtornos neurológicos, em especial do espectro autista, no Brasil ainda é marcada pela exclusão social progressiva; sendo esta perpetuada pela ausência de informações a cerca do assunto, a intolerância e o despreparo governamental para a efetivação de medidas de integração.
Tal conjuntura se deve, primordialmente, ao fato de haver uma escassez de informações que busquem conscientizar a população à respeito do autismo. A inexistência de uma cultura que estimule o debate sobre o tema contribui para o sentimento de incompreensão e a perduração de ambientes inóspitos aos neurodivergentes. Sob essa ótica, o capacitismo, a descriminação contra deficientes, é gerado pela ausência de conhecimentos adequados sobre o assunto e o distanciamento que os autistas possuem em relação à padronização de um comportamento social, já que estes sofrem, na maioria dos casos, com retardo intelectual e linguagem verbal deficitária. Desse modo, esse fenômeno pode ser explicado pela concepção de “banalidade do mal”, por Hannah Arendt, em que a repetição de atitudes outrora consideradas ausentes de empatia, se tornam tão habituais na sociedade que a insensibilidade frente às dificuldades do outro, aquele que se divergente à generalidade, se normaliza.
Ademais, a ineficiência do Estado em promover políticas inclusivas é inegável. No âmbito educacional, a falta de profissionais qualificados a criar dinâmicas pedagógicas que possam atender às necessidades especiais desses alunos é uma das razões que afasta esse grupo do ambiente estudantil. Por consequência, esses indivíduos não possuem oportunidades iguais de constituir uma vida dissociada da dependência familiar já que, além da dificuldade de se manter como estudantes, 85% dos brasileiros autistas estão fora do mercado de trabalho, segundo o IBGE. Nesse sentido, a falta de portadores de autismo em áreas de convivência contribui para o pensamento retrógrado de que essas pessoas não tem capacidade de terem vidas “normais” e merecem ser tratadas como inválidas.
Nesse sentido, medidas são necessárias para resolver esse impasse. É preciso que o Ministério da Saúde traga maior visibilidade ao assunto, se utilizando da mídia para propagar informações que possam facilitar, não só o diagnóstico precoce, mas também a compreensão dos neurotípicos frente ao autismo. Além disso, é vital que o Ministério da Educação implemente em instituições de ensino administrações especializadas no suporte psicológico aos estudantes com transtornos neurológicos.