Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil
Enviada em 14/12/2020
A série televisiva “The Good Doctor” retrata o cotidiano de Shaun, um jovem médico portador do Transtorno do Espectro Autista. Nos episódios, Shaun enfrenta um intenso preconceito – tanto da equipe médica, quanto dos pacientes- por acreditarem que sua síndrome o tornava incapaz. Apesar de fictícia, a série faz um paralelo com a realidade desta parcela minoritária da população brasileira, no que tange às dificuldades enfrentadas por esses, devido à escassez da discussão sobre o autismo no Brasil. Dessa forma, é imprescindível debater sobre como a inoperância estatal, somada a negligência no sistema educacional, tolhem a superação da problemática.
Em primeiro plano, é válido reconhecer que a inércia governamental estimula a segregação dos autistas. Acerca disso, é pertinente trazer o ideário do teórico contratualista John Locke, o qual afirma que é dever do Estado garantir o bem-estar social. Entretanto, o órgão público possui um papel passivo nesse cenário, haja vista que ignora ações que poderiam, potencialmente, fomentar a inclusão social, como a capacitação dos funcionários públicos, de forma que possam atender adequadamente as demandas desse grupo. Desse modo, configura-se uma quebra do “contrato social” proposto por Locke, tendo em vista que o governo atua como agente perpetuador do processo segregacionista.
Em segundo plano, vale salientar que a educação tecnicista no Brasil promove a permanência do imbróglio. Assim, de acordo com o teórico Pierre Bordieu, o processo de socialização promove uma violência simbólica perante alguns indivíduos, visto que esse panorama impulsiona os padrões de discurso de certa classe dominante. De forma análoga, com uma educação voltada para a memorização técnica, o indivíduo autista é afetado por esse tipo de violência, pois, dentro desse espectro, há a necessidade de uma educação contrária à convencional. Sendo assim, o autista pode se sentir inferiorizado e excluído dos processos educacionais.
Destarte, é incontrovertível que o debate acerca do autismo, perante a sociedade tupiniquim, é falho, segregando socialmente essa parcela da população. Portanto, urge que o Ministério da Educação promova, por meio de um amplo debate entre a sociedade civil e o Estado, um plano de inclusão para pessoas com necessidades especiais. Nesse contexto, o plano deve englobar a capacitação dos agentes públicos, de forma que esses se tornem aptos para atender pessoas dentro do espectro autista. Assim como possa haver palestras nas escolas, com profissionais da área, como fonoaudiólogos, que ensinem sobre os parâmetros necessários para a aprendizagem eficaz dos autistas. Dessa forma, a inclusão será possível e as dificuldades enfrentadas por Shaun permanecerão na ficção.