Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil

Enviada em 26/12/2020

Na obra cinematográfica “Extraordinário”, são evidenciados os empecilhos para a socialização de um menino com uma condição genética rara. Nessa história, a criança não é capaz de interagir adequadamente com os colegas da escola. Da mesma forma, os portadores da Síndrome do Espectro Autista enfrentam muitos obstáculos para efetivar a sua integração na sociedade brasileira, seja por causa de um diagnóstico tardio, seja por conta de um ambiente escolar despreparado.

Em primeiro lugar, o tratamento tardio do autismo impacta negativamente o sucesso social das pessoas acometidas pela doença. Conforme o sociólogo americano Peter Berger, a personalização dos indivíduos atinge seu clímax na infância. Isso porque, nesse período, as pessoas irão adquirir todas as informações práticas necessárias para a construção de sua visão de mundo. Nesse sentido, transtornos não tratados nessa idade poderão se enraizar profundamente na personalidade das crianças. Assim, como a expressão social e a psique são aspectos muito complexos para serem modificados, o tratamento dos autistas adultos se torna mais trabalhoso, o que dificulta a sua inclusão na sociedade.

Em segundo lugar, a falta de um ambiente de aprendizado adaptado aos autistas prejudica o tratamento do quadro clínico. Segundo João Malheiro, diretor do bem-sucedido Colégio Porto Real, o trabalho conjunto entre escola e família é um dos modelos mais efetivos para o desenvolvimento cognitivo e psicológico dos estudantes. Nessa perspectiva, depreende-se que um dos maiores obstáculos enfrentados pelos portadores do Transtorno do Espectro Autista é lidar com um ambiente educacional desvinculado de seu contexto pessoal. Por exemplo, nem todos os educandários possuem um plano de estudos personalizado para autistas, psicólogos para atender às demandas de crianças especiais ou diálogo direto com a família. Desse modo, existe um reforço institucional da exclusão de autistas em uma das etapas mais importantes de seu crescimento pessoal.

Portanto, os desafios para a inclusão dos autistas no país se devem à falta de acompanhamento precoce e à ausência de um plano escolar vinculado à família. Nesse sentido, o Ministério da Saúde deverá decretar a obrigatoriedade do exame de diagnóstico do Espectro Autista em crianças de até sete anos, com a finalidade de otimizar a detecção da enfermidade e encaminhar precocemente o tratamento aos médicos e psicólogos. Ademais, o Ministério da Educação deverá contratar mais pedagogos, por meio de concursos públicos semestrais, com a finalidade de montar equipes especializadas na elaboração de projetos de estudo para os autistas, o que complementará o trabalho de socialização desenvolvido no ambiente familiar. Assim, a sociedade brasileira estará melhor capacitada para oferecer oportunidades de crescimento pessoal a um número maior de Extraordinários.