Os desafios da inclusão de pessoas com autismo no Brasil

Enviada em 14/06/2022

No livro “Memórias póstumas de Brás Cubas”, do escritor Machado de Assis, a desvalorização da personagem Eugênia é justificada pela estigmatização da sua deficiência física. De maneira análoga, a falta de discussão acerca do autismo, no Brasil, também se relaciona com a marginalização dos indivíduos autistas. Nesse sentido, cabe analisar tanto como a periferização social de pessoas autistas contribui para a escassez de debate sobre essa temática quanto como a ausência dessa pauta reforça a própria situação de exclusão social desse grupo.

Em primeiro plano, é válido evidenciar que a falta de debate sobre o autismo está alicerçada em um movimento de invisibilização de autistas. De acordo com Michel Foucault, filósofo, alguns temas são silenciados com o objetivo de manter certas estruturas de poder. Sob essa perspectiva, a ausência de discussão sobre o autismo serve para a permanência de um código comportamental normativo. Nesse contexto, o apagamento dessa pauta revela-se como um efeito de um processo histórico-social de estigmatização de sujeitos neurodivergentes. Desse modo, a falta de discussão conserva uma cultura intolerante à neuroatipicidade.

Diante desse cenário, a carência de debates impossibilita a superação dos obstáculos para a devida inserção social de autistas. Consoante à reflexão de estigma do sociólogo Erving Goffman, os indivíduos estigmatizados são negados à aceitação e participação social plena. Nessa lógica, constata-se que os empecilhos ao desenvolvimento das potencialidades do autista são fomentados pela sua estigmatização. Tendo isso em vista, é possível notar que a inexistência de discussão, por obstruir processos dialógicos de problematização e crítica a preconceitos relacionados aos autistas, propicia a preservação da corrente discriminação desse grupo. Dessa maneira, o silenciamento desse tema perpetua tanto o isolamento social quanto a alienação da cidadania do autista.

Portanto, compete ao Ministério da Educação promover discussões sobre o autismo e a neurodiversidade, nas escolas e em programas midiáticos, por meio do convite de médicos e cientistas sociais, a fim de que informações de qualidade sejam democratizadas. Assim, a transformação da mentalidade social é concebível e, por conseguinte, a garantia do bem-estar desse coletivo.