Os desafios da mobilidade urbana de baixo impacto ambiental

Enviada em 22/07/2020

Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor português José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente as adversidades sociais. Na atualidade, a sociedade parece acometida por uma espécie de cegueira moral, similar à de Saramago, que impede que os entraves relacionados à mobilidade urbana de baixo impacto ambiental sejam visados e combatidos. Assim, deve-se analisar a responsabilidade dos reflexos do sistema capitalista, bem como da inação governamental na permanência desse cenário.

Primeiramente, os indivíduos, majoritariamente, não se preocupam com o conjunto social em razão da conjuntura imposta pelo sistema capitalista. Isso se dá porque, segundo o sociólogo É. Durkheim, a competição individualista desmedida imposta por tal sistema econômico deteriora os princípios de Solidariedade, definida como pertencimento social pelo autor. Sob essa ótica, a perda da noção de pertencimento social inibe a adoção do uso de meios de transportes não poluentes, como as bicicletas. Uma vez que essa medida só faz sentido quando objetiva reduzir a interferência humana no meio ambiente, contribuindo para o bem da sociedade como um todo.

Outrossim, é importante ponderar a inoperância estatal, no Brasil, como mantenedora da incipiência dos meios de locomoção são sustentáveis. Segundo J. J. Rousseal, o “Contrato social” é um pacto no qual os indivíduos exercem sua liberdade dentro das leis e o Estado proporciona a todos o bem comum. No entanto, verifica-se no contexto hodierno brasileiro que o princípio do contratualista não está sendo cumprido efetivamente, visto que medidas incentivadoras da adesão às referidas formas de deslocamento são escassas e, quando realizadas, feitas em locais centrais das cidades, impedindo que os moradores dos bairros periféricos possam aderir.

Portanto, é imprescindível que se eliminem as barreiras do transporte de baixo impacto ambiental. Para isso, cabe ao Super Ministério do Desenvolvimento Regional, como responsável pela infraestrutura nacional, desenvolver unidades de pesquisa que mapearão os locais onde há necessidade de investimento em transportes desse tipo. Essas unidades utilizarão critérios como o grau de poluição relativa à densidade demográfica e irão direcionar as medidas do ministério. Ademais, dados comparativos devem ser veiculados pelo governo com o objetivo de contrapor os efeitos dos vários tipos de meios de locomoção, para informar as pessoas e as induzirem à adoção das medidas que serão aplicadas. Assim, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada.