Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 27/09/2018
Na sociedade fictícia apresentada pela animação ‘Carros’, da Pixar, os automóveis são os protagonistas. Fora da ficção, é possível fazer uma analogia com a realidade brasileira e a crise de mobilidade urbana estabelecida. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um entrave ocasionado, principalmente, pela má gestão político-administrativa e pela falta de consciência social.
Em primeiro lugar, é possível perceber que essa circunstância deve-se a questões históricas. Destarte, desde o governo J.K. e seu modelo desenvolvimentista, vive-se no país uma intensa valorização do carro e incentivo à sua compra, incluindo diversas facilidades de crédito bancário, ações que causam inchaço nas rodovias brasileiras. Ademais, o movimento modernista no Brasil, tendo o carro como um símbolo do avanço, influenciou urbanismos deficitários do ponto de vista do pedestre, bem como dos deficientes físicos, com calçadas estreitas ou inexistentes, a fim de acomodar o automóvel.
Outrossim, o desmerecimento de transportes alternativos contribui para a crise. À vista disso, sabe-se que as gestões municipais não dão a atenção necessária para a manutenção de meios mais sustentáveis de locomoção. Fatores como sucateamento dos ônibus, falta de vias de BRT e cliclovias, além da insegurança estabelecida pela violência urbana, impedem o pleno uso de tais modais pelos cidadãos e a mudança de mentalidade social quanto à mobilidade urbana. Como consequência, um cidadão paulistano, por exemplo, passa 45 dias no trânsito, no intervalo de um ano, segundo o IBOPE, o que compromete sua qualidade de vida. O filósofo Aristóteles afirmou que a política deve ser utilizada para que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. Diante disso, o descaso dos políticos com relação à essa problemática, gera um desequilíbrio social.
Logo, a necessidade de medidas interventivas se faz urgente. Considerando a educação como primeiro e mais importante passo para a mudança, o MEC, em parceria com as escolas e profissionais especializados, como urbanistas, deve elaborar campanhas a serem aplicadas na grade curricular de ensino, visando a conscientização sobre mobilidade urbana, incluindo no debate o incentivo ao uso de transportes alternativos e inserindo determinadas recompensas a quem o fizer. Na esfera política, os gestores, bem como a sociedade civil, devem focar suas atenções nessa problemática e investir cada vez mais na ampliação das redes cicloviárias, melhorias nos ônibus, implantação de BRT’s e, em alguns casos, a cobrança de pedágios urbanos a fim de reverter o arrecadado em investimento público. Para que dessa forma, o mundo carrocêntrico da Pixar permaneça somente na ficção.