Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 09/07/2018
“Gases poluentes, tóxicos e asfixiantes. Sons de motores e buzinas que excedem os limites da racionalidade. Tráfego lento e inoperante pelas cidades”. Eis um típico retrato do meio urbano contemporâneo, o qual encarcera grande parte dos cidadãos brasileiros em seus bens móveis, presos em trajetos cujas distâncias, nem sempre tão longas, parecem imensuráveis devido ao ocioso tempo perdido em tais demorados percursos. Um quadro estático, porém hodierno, que se assemelha pifiamente ao conceito de mobilidade urbana e ratifica a filosofia do absurdo criada pelo jurista Albert Camus: o ser humano comum vive aquém de qualquer outro propósito além do constante ato de viver. Um imbróglio que, no entanto, pode ser contestado e contornado pela humanidade.
Consoante ao exposto, a literatura arcadista parecia prever os efeitos da urbanização e da industrialização desmedidas ao criticar os centros urbanos e exaltar, romanticamente, o campo. Contudo, tal manifestação artística em nada freou o avanço das cidades, de forma que o romântico Gonçalves Dias, hoje, dificilmente escreveria os versos “Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá”, afinal, a realidade do mundo moderno fora dominada pela revolução industrial e pelos ideais fordistas, cuja massiva produção de automóveis, gerou, consequentemente, um modelo de mobilidade pragmático, porém absurdo, por ser insustentável e destrutivo para o meio ambiente.
Por conseguinte, o Brasil incorreu no erro dessa falsa ideia de avanço ao aceitar a máxima “Governar é abrir estradas” quando elegeu Washington Luís para presidência. A posteriori, teve tais efeitos amplificados por Juscelino Kubitschek, o qual trouxe a industrialização automobilística para o país. Destarte, a política e a cultura tangentes à mobilidade canarinha reduziram-se, essencialmente, à utilização de estradas e veículos automotores. Como consequência, hodiernamente, o cenário das vias é de constantes engarrafamentos, com poucas opções onde haja qualidade e conforto nos transportes coletivos, além de trajetos deveras inseguros para os ciclistas.
É incontrovertível, pois, a necessidade de ações que convalesçam a mobilidade urbana brasileira. Primeiramente, as prefeituras precisam investir em ciclovias, ligando toda a teia urbana tupiniquim. Posteriormente, tais órgãos precisarão criar um sistema de aluguel de bicicletas acessível e vinculado à rede de transporte coletivo. Dessa forma, sentir-se-á seguro, o cidadão, para trafegar pelas vias num meio de condução que não polui o ambiente e faz bem à sua saúde. Ademais, o Ministério dos Transportes pode intervir com o aprimoramento das conduções coletivas ao criar políticas que incentivem o uso de energia elétrica e solar pelas empresas concessionárias. Com efeito, refuta-se a teoria do absurdo de Camus, vivendo não apenas com propósito, mas, sobretudo, harmonicamente.