Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 30/10/2018
Na mitologia grega, a Esfinge era um ser que guardava consigo um enigma, cuja solução não era encontrada por nenhum cidadão grego, que ao errar, era prontamente devorado pela fera. Analogamente, quando se observa os desafios frente à mobilidade urbana no Brasil, fato que compromete a circulação do indivíduo por entre quaisquer pontos da cidade, percebe-se que esse se configura como um verdadeiro enigma do país. Desse modo, a problemática persiste, seja por consequência histórica, seja pela negligência governamental diante do exposto.
É importante notar, a princípio, que a escolha do rodoviarismo ainda na década de 60, durante o período JK, é um fator preponderante para explicar o problema. Assim, através do projeto desenvolvimentista, o então presidente do Brasil foi responsável por atrair empresas de produção de automóveis e incitar o compra de veículos pelos civis. Tal fato, tomando-se por base a teoria do Habitus de Pierre Bordieu, faz com que a sociedade incorpore valores historicamente impostos a sua realidade, como a compra de carros, e os naturalize, o que explica a enorme frota de veículos em solo brasileiro, que segundo a FGV cresceu 400% em 10 anos. Consecutivamente, é fácil compreender o porquê do ir e vir nas cidades brasileiras é, há decadas, um impasse nacional.
Ademais, é necessário perceber, ainda, que a passividade do Governo frente à imobilidade de suas cidades também é responsável pela manutenção do problema. Dessa maneira, apesar do notável conhecimento acerca da imobilidade urbana no país, os dirigentes do Estado se mostram, assim como na teoria da banalização do mal de Hannah Arendt, negligêntes diante do exposto, de modo que a problemática constinua a se perpetuar durante gerações. Nesse sentido, a ausência de políticas públicas que visem solucionar o empecilho, tais como o investimento em ciclovias, a disponibilização de ônibus mais confortáveis e seguros além da maior integração ferroviária, constribuem para a permanência da situação caótica rodoviária, relacionada ao estresses, atrasos e brigas de trânsito.
Torna-se evidente, portanto, que medidas enérgicas devem ser aplicadas a fim de concretizar a mobilidade urbana no Brasil. Sob esse aspecto, cabe ao Ministério do Transporte, em conjunto com as Secretarias de Transporte, o papel de disponibilizar uma maior frota de ônibus, construir ciclovias, além de incentivar o uso desses por meio, respectivamente, de um redirecionamento de investimento na incorporação de transportes públicos mais seguros e confortáveis, da edificação de ciclovias em todos os municípios, com o auxílio de um policial rodoviário e da utilização midiática para campanhas que incitem o uso desses. Somente assim, a longo prazo, a Esfinge brasileira será, finalmente, solucionada.