Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 02/09/2019

A Constituição Federal, promulgada em 1988, garante a todos o direito de ir e vir. Entretanto, o excesso de automóveis particulares e a precariedade dos transportes coletivos mostram que o Brasil é incapaz de experimentar esse direito na prática. Com efeito, a construção de uma mobilidade urbana eficaz pressupõe ação conjunta entre poder público e população.

Em primeiro plano, é perceptível que a herança histórico-cultural constitui um desafio da mobilidade urbana no Brasil. Nesse viés, o governo de JK, para favorecer a entrada de capital estrangeiro ligado à indústria automobilística, promoveu o crescimento do modal rodoviário em detrimento de outras formas de transportes. Ocorre que esse equívoco gerou uma sociedade limitada à locomoção nas estradas, o que, por haver apenas um tipo de transporte predominante, ocasiona longos congestionamentos nas vias das cidades, dificultando, dessa forma, a vida da população. Dessa maneira, enquanto essa mentalidade do passado não for desconstruída, a sociedade precisará conviver com a péssima condição de mobilidade pública no país.

De outra parte, fica evidente que o grande contingente de veículos individuais prejudica a saúde da sociedade. A esse respeito, segundo Theodor Adorno, a indústria cultural, por meio da propaganda, implanta a necessidade de consumo compulsório nas pessoas, na medida que associa à compra de produtos a uma pseudo-felicidade. Nessa perspectiva, a supervalorização do carro é resultado da influência midiática, que induz à massificação do consumo. Em virtude disso, há uma intensa emissão de gases poluentes provenientes da combustão da gasolina, cujos impactos ao meio ambiente e ao bem-estar da população são irreversíveis. Desse modo, para que essa realidade não debilite a integridade da natureza e dos cidadãos, é imprescindível frear proliferação exponencial de carros, promovida pela indústria cultural.

Urge, pois, que o poder público e a população ajam em consonância para atenuar os desafios impostos à efetiva mobilidade urbana no país. Nesse sentido, a Agência Nacional de Transportes Terrestres deve, por meio de contratos administrativos feitos com empresas de transportes públicos, promover a ampliação na oferta de trens e metrôs, a fim de que se reduza o número de veículos particulares nas ruas. Por sua vez, os indivíduos devem, com urgência, propor debates, por meio das redes sociais, acerca da poluição causada pelos automóveis, para que se construa uma consciência ambiental e se priorize o uso de transportes coletivos, desestimulando o culto ao carro. Assim, a população brasileira usufruiria plenamente do direito proposto pela Constituição.