Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 17/10/2019
Apenas teoria
Em 1988, Ulysses Guimarães promulgou a Carta Magna e determinou que o direito ao transporte deveria ser garantido a todos. Os históricos problemas de mobilidade, no entanto, mostram que a promessa de Ulysses ainda está distante de ser a realidade nos centros urbanos. Com efeito, o eficaz deslocamento nas cidades pressupõe que se desconstrua o modelo baseado em rodovias e o culto ao carro no Brasil.
Em primeiro plano, há de se repensar o histórico investimento em estratégias incapazes de suprir a demanda. Nesse sentido, em 1956, o então presidente Juscelino Kubitschek preferiu investir no rodoviarismo e motivou a população adquirir veículos, sem os quais seria impossível o deslocamento nas cidades. Ocorre que o modelo econômico excludente proposto por JK promoveu- e ainda promove- a desigualdade social, na medida em que mostra insuficiente e restrita à minoria detentora do poder econômico. Com efeito, é incoerente que, mesmo no Estado Democrático de Direito, o poder público persista em não oferecer mobilidade inclusiva.
De outra parte, o culto ao carro na sociedade brasileira se mostra desafio à gestão da mobilidade no meio urbano. A esse respeito, o filósofo Theodor Adorno desenvolveu o conceito de Indústria Cultural, segundo o qual a mídia veicula conteúdos de forma constante e persuasiva, a fim de orientar o comportamento da sociedade. Nesse viés, a preferência da população por carros é motivada pelo constante discurso midiático denunciado por Adorno e reafirma a ideologia imprópria e egoísta, que eleva os veículos automotores a objetos de prestígio. Assim, enquanto a supervalorização do carro for a regra, os cidadãos brasileiros serão obrigados a conviver com um dos maiores desafios do meio urbano: o trânsito caótico.
Os desafios do deslocamento nas cidades, portanto, necessitam que os cidadãos manifestem seu senso crítico, por meio de discussões nas mídias sociais, capazes de criticar o modelo rodoviarista e sugerir que as autoridades desenvolvam o ferroviarismo, como trens e metrôs. Essa iniciativa social teria a finalidade de desestimular o culto ao carro- midiaticamente incentivado- e assim, possibilitar que a promessa de Guimarães deixe de ser apenas teoria.