Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 10/06/2020
Os protestos de 2013, ocorridos de forma generalizada, evidenciaram, pela primeira vez, o engajamento de todo o capital social a partir da discussão do problema dos transportes públicos no Brasil. Inegavelmente, um dos desafios atuais mais pertinentes para a gestão pública é a caótica situação da mobilidade urbana nas cidades brasileiras. Produto de um crescimento desordenado e alimentada pela ineficiência governamental, a mobilidade urbana, portanto, se traduz em um problema que mina o direito de ir e vir, com riscos humanos, sociais e ambientais para todos.
É importante salientar, a princípio, que a lógica da supervalorização do carro como principal meio de transporte, ocorrida no Brasil, é um modelo insustentável, pois não se planeja o espaço urbano para tal. Dessa forma, inunda-se as cidades com veículos sem um ordenamento adequado, transformando o espaço urbano para além dos limites do administrável. Ademais, 90% dos municípios brasileiros não tem sequer um plano diretor para trânsito e deslocamento, segundo dados da Câmara dos Deputados, de 2017. Isso reflete, em último grau, o nível de desenvolvimento de uma nação, ao analisar o seu ordenamento e controle de trânsito. Nessa balança é fácil comparar o Rio de Janeiro à La Paz e Nova Deli. Fato que tem, portanto, várias repercussões.
De semelhante modo, percebe-se, como resultado da falta de organização do sistema de mobilidade urbana no Brasil, consequências como o aumento da poluição atmosférica, problemas de saúde pública ou mesmo o aumento crescente no número de mortes por acidentes de trânsito, perfazendo 40 mil, em 2019, conforme Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Com efeito, o trânsito é um lugar perigoso, de acordo com o geógrafo David Harvey, pois não é pensado para o bem-estar da população, mas sim, com viés mercadológico. Sem dúvida, debater projetos que visem a superação desses entraves é imprescindível, engajando a sociedade, pois é em seu seio que o problema ocorre.
É fundamental, portanto, para a resolução desse quadro, que o Ministério dos Transportes e as Secretarias de Desenvolvimento Social incentivem projetos que envolvam a transformação do ideal do automóvel de um bem, para um serviço, ressignificando-o. Ou seja, que promovam a minimização da importância do carro fomentando meios alternativos, regionalizados e adaptados, como transporte por cabotagem no Norte, por aplicativo em cidades médias, patinetes, aluguel de bicicletas e transporte coletivo em cidades grandes. Com objetivo, portanto, de não repetir o erro exposto lá em 2013 e diversificar a matriz de locomoção, diminuindo os riscos e priorizando o bem maior: a qualidade de vida.