Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 13/01/2021
Em sua obra “Como As Democracias Morrem”, os escritores Levistky e Ziblat dissertam que, embora um país apresente um conjunto consistente de leis, um compromisso débil em aplicá-las configura-se como uma afronta à democracia. Diante disso, percebe-se que, apesar do transporte ser um direito constitucionalmente conhecido mediante o artigo 6°, não se encontra efetivado no que tange à questão dos desafios da mobilidade urbana brasileira. Esse panorama se deve, sobretudo, à inatividade governamental e a uma cultura que não se encaixa na contemporaneidade.
Mormente, é válido destacar que a inação pública representa um forte empecilho para a resolução da problemática. Isso porque, em consonância ao termo “cidadania de papel” do escritor Gilberto Dimenstein, o Estado não cumpre seu dever de efetivar o estatuto supracitado - tornando-o uma mera representação no papel. Com isso, o engafarramento torna-se frequente e os meios de locomação sustentáveis demonstram-se inviáveis em decorrência da inércia estatal, que não disponibiliza, por exemplo, de bicicletas públicas e ciclovias que alcancem toda a população. Tendo em vista esse cenário nefasto, é possível afirmar que a democracia atual, conforme o pensamento de Levistky e Ziblat, encontra-se morta e os cidadãos que vivem nesse plano são, por sua vez, feitos de papel, por não terem seus direitos naturais reconhecidos.
Outrossim, cabe destacar que a mudança desse cenário está intrínseca à construção de um novo costume. De acordo com o sociólogo Émile Durkheim, compreende-se por fato social a forma coletiva de pensar e agir. Sob esse viés, nota-se que o pensamento comunitário de associar os veículos automobílisticos à melhor forma de mobilidade, revela a necessidade de desmitificar essa ideia. Todavia, se o indíviduo vive num meio que exalta os carros de passeio como a melhor opção, tenderá a refletir similarmente, o que corrobora, assim, por meio da vertente sociológica de Durkheim de que o pensar coletivo afeta o transporte brasileiro.
Portanto, faz-se imperativo que esses entraves sejam solucionados. Logo, urge que o Ministério do Desenvolvimento Regional crie políticas de melhorias da mobilidade urbana, por meio da construção de ciclovias e da distribuição de bicicletas. Esses veículos de duas rodas, por sua vez, devem ser colocados em bicicletários, cujo acesso se dê por uma taxa simbólica, a fim de que a prática seja democratizada. Ademais, cabe ao Ministério da Educação ensinar a importância dos meios locomotivos sustentáveis à população, por meio de palestras gratuítas em associações dos moradores, as quais devem ser ministradas por ciclistas e chefes do tráfego, que explicarão os benefícios do seu uso, para que ocorra um hábito mais sustentável. Assim, a doutrina democrática não tornar-se-á morta.