Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 11/05/2021

Em 1988, representantes do povo - reunidos em Assembléia Constituinte - instituíram um Estado Democrático, a fim de assegurar o transporte como valor supremo de uma sociedade fraterna. Entretanto, os obstáculos da mobilidade urbana revelam que nem todos os brasileiros experimentam desse direito na prática. Com efeito, há de se repensar não só as atuais estratégias de deslocamento urbano, mas também o culto ao carro.

Diante desse cenário, o modelo de mobilidade baseado no carro se mostra incapaz de suprir a demanda. Nesse sentido, em 1956, o ex-presidente Juscelino Kubitschek preferiu investir no rodoviarismo e motivou a população adquirir veículos, sem os quais seria impossível  o deslocamento nas cidades. Ocorre que o modelo econômico excludente proposto por JK promoveu - e ainda promove- a desigualdade social, na medida em que se mostra ineficiente e restrita à minoria detentora do poder econômico. Com efeito, é incoerente que, mesmo no Estado Democrático de Direito, o poder público persista em não oferecer mobilidade inclusiva.

Dessa maneira, a supervalorização do carro se mostra um desafio à gestão da mobilidade no meio urbano. A esse respeito, o filósofo Theodor Adorno desenvolveu o conceito de Indústria Cultural, segundo o qual a mídia veícula conteúdos de forma constante e persuasiva, a fim de orientar o comportamento de compra da sociedade. Nesse viés, a preferência da população por carros é motivada pelo constante discurso midiático denunciado por Adorno e reafirma a ideologia imprópria e egoísta, que eleva os veículos  automotores a objetos de prestígio. Assim, enquanto o culto ao carro for regra, os cidadãos serão obrigados a conviver com um dos maiores desafios do meio urbano: o trânsito caótico.

Portanto, o deslocamento nas cidades brasileiras apresenta obstáculos que impedem a sua eficiência. Para solucioná-los, os governadores dos estados, em parceria com as prefeituras, devem investir em ferrovias, por meio da construção e da ampliação dos transportes de massa, como trens e metrôs. A iniciativa estatal poderia se chamar “Mobilidade presente” e teria a finalidade de melhorar o deslocamento público, de modo a não torná-lo democrático aos mais pobres, mas também desestimular a supervalorização do carro. Assim, a partir da criação de uma estratégia de transporte urbano inclusivo, o Brasil será, de fato, uma sociedade livre, justa e solidária.