Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 20/04/2022
Em “O Poema de Sete Faces”, do escritor Carlos Drummond de Andrade, é retra-tada a máxima lotação de um bonde, o que simboliza, na cidade retratada, a precá-ria quantidade de transportes em circulação. Fora da arte, no Brasil, a questão de-safiadora da mobilidade urbana adquire proporções alarmantes e, na mesma via do poema, denota os desafios de deslocamentos citadinos por parte da população. Isso se evidencia não só pela abstenção estatal, como também pelo individualismo.
Primeiramente, é lícito destacar como parte do Estado costuma lidar com a pro-blemática. Isso porque, como afirmou Gilberto Dimenstein, em sua obra “O Cida-dão de Papel”, a legislação brasileira é ineficaz, visto que, embora aparente ser completa na teoria, muitas vezes, não se concretiza na prática. Prova disso é a es-cassez de políticas públicas satisfatórias voltadas para a aplicação do artigo 6º da “Constituição Cidadã”, que garante, entre tantos direitos, o acesso aos transportes. Isso é perceptível seja pela precariedade de veículos públicos, seja pelos históricos investimentos estatais na política rodoviarista - o que tem desfavorecido o uso de outros modais, tais como locomotivas ferroviárias. Desse modo, infere-se que nem mesmo o princípio jurídico foi capaz de viabilizar a mobilidade urbana no Brasil.
Outrossim, vale ressaltar a precária sociabilidade no país como outro pilar de sustentação desse dilema. Sob esse aspecto, para o sociólogo Zygmunt Bauman, no livro “Modernidade Líquida”, a atual rede de relações sociais, quando investida em prol de interesses individuais, acentua a aversão ao outro e abala o bem-estar comunitário. Nesse viés, percebe-se que, trazendo para a questão da mobilidade urbana, o princípio antissocial é consolidado, pois, por conta do individualismo, parte da população tende a adotar, por exemplo, automóveis próprios - o que po-de acarretar engarrafamentos e, assim, dificultar a locomoção civil em geral.
Portanto, cabe ao Ministério da Infraestrutura, responsável por oportunizar a harmonia sociogeográfica, facilitar a mobilidade urbana no Brasil. Tal ação deverá ocorrer por meio da criação de um Projeto Nacional de Mobilidade Urbana, o qual irá promover, junto a entidades privadas, manutenções de transportes públicos e, a partir disso, incentivar aos civis, por intermédio da mídia, o uso de tais veículos, a fim de mitigar as precariedades e contornar questões como os engarrafamentos.