Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 17/11/2021

No conto “Maria”, Conceição Evaristo retrata a realidade de uma diarista cujo modal de transporte diário entre sua casa e seu trabalho se dá por meio da precária rede de locomoção urbana. Tal representação, todavia, não se discrepa da contemporaneidade, em que a maioria da população prefere veículos individuais em detrimento de ônibus, por exemplo, de modo a intensificar os desafios da mobilidade urbana no país. Isso, por sua vez, decorre das atuais condições governamentais relacionadas à aquisição de meios de transporte e da noção de luxo que permeia esse panorama.

De início, o próprio governo permite que os entraves relativos à mobilidade urbana se acentuem devido à valorização da malha rodoviária em detrimento de meios sustentáveis. Nesse sentido, cabe remontar ao governo Juscelino Kubitscheck, responsável por implantar a indústria automobilística no Brasil, que fomentou a posse de carros e a criação de rodovias. Urge, pois, o desinteresse populacional no que tange à locomoção coletiva, uma vez que as condições nacionais privilegiam os carros individuais e sua manutenção, haja vista a recente redução dos impostos sobre produtos importados, de acordo com o site Mundo Educação. À vista dessa incoerência, inviabiliza-se uma guinada rumo a urbanizações ecologicamente saudáveis no que se refere à mobilidade.

Ademais, não é um absurdo levar em consideração a imagem de luxo que há nesse cenário, também advinda da governança JK. Assim, esse contribuinte atua fazendo os cidadãos se endividarem, a fim de suprir tanto a necessidade de deslocamento quanto munir-se do status quo oriundo dessa posse. Dessarte, nascem os problemas urbanos: congestionamento, estresse, horários de pico e afins, como revela o jornal O Globo, ao afirmar que o cidadão paulista gasta, anualmente, quarenta e cinco dias no trânsito.

Logo, é mister que o Estado transfigure essa situação. Para tanto, cabe ao governo federal investir nas Universidades públicas, por meio de verbas consideráveis, a fim que que os pesquisadores brasileiros (das mais variadas áreas do conhecimento) atuem concomitantemente construindo meios e métodos para sanar os impasses referentes ao deslocamento populacional. Somente por meio do uso da produção do saber científico, portanto, possibilitar-se-á a redução de histórias semelhantes a de “Maria”, retratada por Conceição Evaristo.