Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 18/11/2021
Em meados de 1950, Juscelino Kubitschek introduzia a instalação de parques produtivos automobilísticos no país. Nesse sentido, tal iniciativa provocou o recrudescimento de adversidades voltadas à dificuldade de locomoção nos centros urbanos. Hodiernamente, mais de 30 décadas depois, ainda é possível observar a influência da política de JK no cotidiano social que, em razão da cultura de valorização do carro e da precariedade dos transportes públicos, enfrenta empecilhos. Logo, são necessárias ações sociais e estatais na contenção dos desafios da mobilidade urbana no Brasil.
Em primeiro plano, é imperioso salientar que a glamurização do transporte individual, decorrente do estímulo ao seu consumo pela indústria, favorece o aumento do número de veículos que trafegam em ruas e avenidas diariamente. Sob esse viés, o escritor George Owrell afirma que “a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa”, ou seja, a indústria, por meio do discurso persuasivo da mídia, controla o comportamento da população, a qual é estimulada a comprar um produto a fim de obter maior prestígio social. Com efeito, há a perpetuação da preferência da sociedade por carros e, consequentemente, das dificuldades de tráfego urbano. Desse modo, enquanto a glamurização do carro for regra, a mobilidade urbana eficaz será a exceção.
Ademais, é notório que o crescimento dos fluxos urbanos nas grandes metrópoles não foi acompanhado de uma política de investimentos que permitisse a sua estruturação, o que pode ser verificado na baixa qualidade dos transportes públicos. A título de ilustração, a realidade brasileira denuncia, por exemplo, o alto preço das passagens de ônibus, a superlotação e poluição dos meios de transporte e a escassa infraestrutura no tocante às estações e aos terminais veiculares. Contrariamente a essa lógica, a Carta Magna -norma de maior hierarquia do sistema jurídico brasileiro- preceitua que o direito ao transporte -o que inclui a sua qualidade- deve ser garantido a todos. Dessa forma, é contraditório que apesar de ser assegurado pela constituição, a precariedade do transporte persista.
Portanto, urge que os canais midiáticos, importantes formadores de opinião, invistam, por meio de campanhas publicitárias, na discussão acerca dos prejuízos à mobilidade urbana decorrentes da hipervalorização do carro e da possibilidade da adoção de novos modais, a fim de desenvolver indivíduos com senso crítico capazes de reverter a lógica apresentada por Owrell. Somado a isso, compete ao Ministério de Infraestrutura a melhoria dos transportes públicos, por intermédio de reformas em ônibus já existentes e em seus terminais e suas estações, para que a população tenha, de fato, outras opções além do veículo particular. Somente assim, poder-se-á combater os desafios, presentes desde 1950 pela política rodoviarista de JK, da mobilidade urbana no Brasil.