Os desafios da mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 11/09/2017
“No meio do caminho tinha uma pedra”. O verso escrito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade explicita as dificuldades de locomoção presentes no país. Trânsito caótico, supersaturação das vias e acessibilidade precária. Apesar da Constituição Federal de 1988 apresentar como uma de suas prerrogativas o direito de ir e vir dos cidadãos, no contexto hodierno, a mobilidade urbana apresenta falhas que promovem a ampliação da insatisfação dos usuários dos diversos modais. Dessa forma, convém analisar as motivações e os corolários oriundos da problemática supracitada.
Primeiramente, é preciso pontuar que o crescimento da frota de automóveis nas ruas das grandes metrópoles brasileiras exerce papel preponderante na imobilidade urbana e na perda de tempo nas vias. Nesse sentido, os órgãos estatais, ao facilitarem a concessão de crédito por meio de incentivos fiscais, contribuíram para uma aquisição de veículos cada vez maior pelos cidadãos, ocasionando a superlotação do trânsito. Além disso, as altas tarifas cobradas pelos transportes coletivos associadas à precariedade destes também incentivaram o incremento na compra de modais individuais, o que elevou em grande escala os congestionamentos. Prova disso é que, consoante dados do Observatório de Metrópoles, o número de automotores aumentou 77% no país.
É crucial destacar, ainda, que as implicações negativas advindas desse acréscimo na quantidade de veículos circulantes não se restringem aos engarrafamentos, prejudicando, também, o meio ambiente e a qualidade de vida da sociedade. Assim, percebe-se que o excesso de poluentes lançados na atmosfera provenientes da queima dos combustíveis fósseis usados em muitos automóveis é responsável não apenas pela intensificação do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global, contribuindo, de maneira análoga, para gerar inúmeras doenças respiratórias nos indivíduos expostos ao ar contaminado. Não obstante, o tempo perdido nos congestionamentos causa estresse nos motoristas e gera atrasos nos postos de trabalho.
Destarte, o estabelecimento de diretrizes é imprescindível para arrefecer esses obstáculos. Portanto, as prefeituras devem cobrar dos motoristas que utilizam vias engarrafadas o pedágio urbano, além de restringir os estacionamentos de automóveis, desestimulando, assim, o uso do transporte individual. Concomitantemente, os governos estaduais devem direcionar verbas para a construção de ciclovias e, em parceria com a iniciativa privada, renovar a frota de ônibus e melhorar a infraestrutura logística dos centros urbanos. Ademais, a sociedade civil pode criar mecanismos de auxílio mútuo, como a carona. Afinal, só assim a pedra será removida do caminho dos cidadãos.