Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 16/09/2017

Fluxo estagnado

“Stop. A vida parou ou foi o automóvel?” Esse verso do poema antifuturista, Cota Zero, de Carlos Drummond, faz uma crítica à sociedade moderna do século XX, o qual faz uma associação entre a existência humana e o automóvel, recorrendo a uma analogia: se o automóvel parar, a vida também para. Apesar do lapso temporal e espacial, percebe-se que a dependência e o excesso quantitativo dos meios de transporte avançam na atualidade, provocando, com isso, problemas na locomoção urbana. Nessa perspectiva, faz-se pertinente discutir os desafios da mobilidade urbana na sociedade brasileira.

Em uma primeira análise, observa-se que o padrão econômico e social de um país determina o poder de compra de produtos industrializados. Isso pode ser exemplificado pela relação entre o aumento da renda da população brasileira, com o crescente número da frota de veículos no país. Essa situação foi favorecida pela concessão de crédito ao consumidor, como também pela redução sobre os impostos dos automóveis, instituída pelo Governo Federal. Assim, tais condições estimularam a preferência da população pelos veículos individuais, gerando o inchaço da frota urbana. Prova disso, são os dados do IBGE, os quais afirmam que enquanto a população cresceu em 12%, entre 2000 e 2010, o número de veículos aumentou em proporção maior, cerca de 22%.

É fundamental destacar, ainda, que o excesso dos meios de transporte nas grandes cidades ocasiona problemas de ordem pública. Isso porque o aumento do uso de veículos particulares, explicado, em parte, pela má qualidade do transporte público, ocasiona congestionamento e lentidão no trânsito. Essa situação se agrava em decorrência da histórica política rodoviarista do Brasil, que possui como modal principal as rodovias. Dessa forma, a garantia da livre circulação, bem como o direito à qualidade de vida urbana, assegurados pelo Estatuto da Cidade, são desrespeitados, existindo, assim, um hiato na coerência entre a prática e o discurso, tal como já afirmado por Platão: " A palavra precisa concordar com o fato", dificultando, assim, o alcance do bem-estar no espaço de uso comum.

Nota-se, portanto, que é necessário melhorias à mobilidade urbana para a garantia do pleno acesso à cidade. Logo, urge que as prefeituras municipais instalem pedágios urbanos - pagamento de taxas para deslocamento - em determinados pontos da cidade, visando, com isso, diminuir a concentração e a quantidade de carros particulares. Aliado a isso, deve-se criar fóruns, pelos membros da cidade, com objetivo de discutir a mobilidade urbana local, buscando, também, fiscalizar ações públicas e investimentos na rede urbana, com objetivo de assegurar o cumprimento dos direitos definidos no Estatuto da Cidade. Somente assim, a vida urbana irá seguir seu fluxo, sem parar.