Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 18/08/2022

O geógrafo Milton Santos, em seu texto “Cidadanias Mutiladas”, afirma que a democracia só é efetiva quando seus direitos são desfrutados por todos. Nessa perspectiva, a democracia brasileira falha, na medida em que o direito de ir e vir é cerceado pela mobilidade urbana deficitária. Isso decorre, especialmente, da dependência do rodoviarismo e da pouca qualidade do serviço público.

Diante disso, apesar das dimensões continentais do país, das diferenças de relevo e das diferentes possibilidades de meios de transporte, os últimos governos continuamente investiram no meio rodoviário, sem planejamento acerca de outras opções financeira e logisticamente mais viáveis. Nesse contexto, na década de 1950, durante a presidência de Juscelino Kubitschek, o Brasil obteve progresso econômico com a expansão da indústria automobilística e da infraestrutura rodoviária, o que levou a um favoritismo por esse modal e um desleixo para com outros. Consequentemente , hoje, o país enfrenta uma sobrecarga dos transportes por falta de opções (pouca malha ferroviária e hidroviária), falta de qualidade (sucateamento das estruturas) e falta de integração (conexão entre diferentes modelos de modo a agilizar deslocamentos). Portanto, o pequeno leque de translados e as falhas quantidade e em qualidade ocasionam vias superlotadas e, com isso, deslocamentos ineficientes. Paralelo a isso, outro fator que dificulta a mobilidade urbana brasileira é a preferência dada ao transporte privado ao invés do público, haja vista que, além dos problemas estruturais deste, aquele se relaciona a um prestígio social melhor em uma sociedade marcada pela desigualdade. Por conta disso, as principais vias das cidades têm o seu contingente de veículos cada vez maior, o que resulta em acidentes, congestionamentos, entre outros problemas. Nessa perspectiva, o sociólogo Guy Debord, em seu livro “A sociedade do espetáculo”, reflete sobre a influência da imagem nas relações sociais e do seu papel de dominação. Analogamente, o modal público, no Brasil, pela sua carência de qualidade, é associado a classes sociais menos privilegiadas e é pouco incentivado, diferente do que ocorre em países de menor disparidade socioeconômica, nos quais ele é amplamente usado por todos.