Os desafios da mobilidade urbana no Brasil

Enviada em 30/10/2017

O prejuízo no lucro

O filósofo alemão Hans Jonas definiu a “ética da responsabilidade” como a preocupação moral e prática que é preciso ter em relação às gerações futuras. No que tange à situação da mobilidade urbana no país, contudo, é notório que o sistema político-econômico brasileiro assume uma postura antiética ao priorizar continuamente o lucro imediato em detrimento das necessidades diárias da população. Faz-se necessário, pois, um modo de reverter esse arquétipo social para garantir a todos o direito de ir e vir.

Primeiramente, já no governo de Juscelino Kubitschek, o então presidente construiu um extenso sistema rodoviário por meio da entrada de companhias transnacionais de ônibus. O capital trazido por tais empresas cegou e continua a cegar os governantes, o que se manifesta no fato de que o país não consegue substituir o rodoviarismo por um sistema mais adequado ainda hoje. O ferroviarismo, por exemplo, mostrou seu poder de integração por intermédio do Eurail, sistema de ferrovias europeu que conecta dezenas de centros urbanos. No Brasil, por sua vez, a ganância de alguns impede a mobilidade de uma nação de dimensões continentais com um povo cada vez mais esparso.

Ademais, mesmo quando há um programa de transporte público eficiente, vários cidadãos desistem de utilizá-lo devido ao perigo presente nas ruas das grandes cidades. Tal fator se deve pela política governamental de, unida ao mercado imobiliário, valorizar áreas antes ocupadas pela camada carente da sociedade, forçando sua expulsão do local e intensificando a favelização existente no país. Esse processo, denominado gentrificação, causa na classe mais pobre uma sensação crescente de falta de perspectivas e oportunidades, a qual parece ser solucionada pelo uso da violência para o sustento familiar. Dessa forma, a compulsão pelo capital imobiliário é responsável pela exclusão social de alguns e pelo medo de muitos.

Percebe-se, destarte, que a avareza característica do sistema político-econômico nacional é responsável pela precariedade da mobilidade urbana. Para transformar esse quadro, o Ministério da Educação pode estabelecer, com a ajuda de professores universitários, aulas de geografia e sociologia nos colégios com conteúdos referentes aos problemas e às possíveis soluções que norteiam a mobilidade nas cidades. Em paralelo, a escola pode realizar atividade extracurriculares acerca da importância da valorização do bem-estar do outro antes do ganho financeiro, com filmes, músicas e palestras que enalteçam a empatia. Assim, a sociedade estará envolvida pela solidariedade ao próximo e pela garantia do próprio direito de ir e vir.