Os desafios da produção artística no Brasil

Enviada em 01/09/2025

A arte, em suas múltiplas formas de expressão, constitui um importante instrumento de visibilidade social e de contestação política. Desde o grafite de Alex Vallauri, que enfrentava a censura durante a ditadura militar, até as pichações atuais nos centros urbanos, a produção artística tem servido não apenas como manifestação estética, mas também como denúncia das desigualdades. Entretanto, no Brasil, a arte de rua enfrenta desafios significativos, sobretudo pela dificuldade em ser reconhecida como legítima e pela criminalização das expressões vindas das periferias.

Sob a ótica da filosofia de Immanuel Kant, a arte não deve ser reduzida apenas à sua utilidade ou função decorativa, mas compreendida como uma manifestação do juízo estético, que ultrapassa conceitos pré-estabelecidos. Assim, quando pichações e grafites são automaticamente enquadrados como vandalismo, o Estado desconsidera esse princípio kantiano, pois ignora que tais práticas também carregam uma dimensão criadora e simbólica, mesmo quando produzidas em tensão com a legalidade.

Nesse sentido, é fundamental analisar a dimensão social por trás da pichação, frequentemente associada às condições periféricas. Como aponta o antropólogo José Guilherme Valiengo, muitos jovens enxergam no ato de marcar muros e edifícios a única forma de serem vistos em uma sociedade que lhes nega oportunidades de lazer, cultura e trabalho. Criminalizar tais práticas, sem oferecer alternativas de expressão e inclusão.

Portanto, para enfrentar os desafios da produção artística no Brasil, é necessário que o Estado implemente políticas públicas que possibilitem aos jovens periféricos meios legítimos de expressão artística, sem confiná-los a espaços específicos como “grafitódromos”, que limitam a liberdade criadora. Programas de incentivo ao grafite e à arte urbana, vinculados a oficinas culturais em escolas públicas e centros comunitários, podem promover tanto a valorização estética quanto a inclusão social.Assim, além de garantir a liberdade criativa defendida por Kant, tais medidas atacariam a raiz do problema: a invisibilidade e a exclusão que levam tantos jovens a se expressarem por meio da pichação.