Os desafios da produção artística no Brasil
Enviada em 11/08/2018
“O homem amarelo”
A recente polêmica causada por uma exposição interativo-visual no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, não se configura tendência atual no universo artístico. Ainda no pré-modernismo, o escritor Monteiro Lobato escreveu um artigo contendo fortes críticas aos quadros da pintora Anita Malfatti, devido à sua estética expressionista. Doravante, o grafite é alvo da discriminação contemporânea, revelando, em coalizão aos exemplos citados, a incompreensão brasileira da arte - mesmo entre especialistas - como medida totalitária e platônica de julgamento moral.
A priori, o grafite é uma manifestação citadina que busca aproximar o indivíduo-comum da arte, haja vista que a cultura de acesso e visitação aos museus não é popularizada no Brasil. Por conseguinte, o preconceito sofrido pelo mesmo reflete-se nas linhas de pichações, marginalizadas pelo poder público. Logo, a medida instituída pela Prefeitura de São Paulo em apagar murais pichados e grafitados, bem como a polemização da exposição do MAM, dialogam com a idealização advinda do filósofo Platão, em definir o que é sinteticamente uma “boa arte” e quais são os seus limites morais e estéticos de beleza.
Por sua vez, a obra de Immanuel Kant discorre acerca da racionalização e imposição de ajuizamentos à arte. Em suas teses, o filósofo questiona a valoração dessas manifestações, demonstrando que a visão de um objeto não se configura, em essência, o objeto em si; consequentemente, as impugnações críticas a outrem revelam mais a respeito daqueles que as proferem, que do alvo propriamente dito. Logo, é um direito do indivíduo não apreciar algo, todavia, é inapropriado proibir uma manifestação artística, baseando-se em opiniões individuais e fragmentadas, reflexo de padrões de harmonia e significação, anteriormente fixados.
Em síntese, a arte não deve ser alvo do utilitarismo cotidiano que os indivíduos empregam à todos os fatores - não raro, à ação de outrem. Tal tendência eufemiza o totalitarismo, ao determinar os rumos que os artistas devem seguir, excluindo-lhes a essencialidade libertadora da mesma. Logo, a arte deve ser fonte de debates e não de imposições. Em detrimento do efeito catártico de assimilacionismo proposto pela mesma, ao estabelecer uma conexão de familiaridade e, consequentemente, de identificação, os Ministérios da Educação e da Cultura devem utilizá-la nas escolas, como forma de contextualização do humanitarismo aos estudantes. Em congruência, a construção de institutos culturais nas periferias, visando aproximar os indivíduos que são alvos latentes da desigualdade socioeconômica no Brasil, é essencial para que se lapide o conceito de arte no imaginário dos cidadãos, haja vista que essa é o exercício da compreensão; logo, o problema começa a partir daí.