Os desafios da produção artística no Brasil

Enviada em 24/10/2019

“Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue’. Estes são os versos da música de Chico Buarque e Gil Vicente, escritos em 1973, durante a ditadura militar, extremamente, autoritária e truculenta no Brasil. Nesse contexto “cálice” é um jeito de expressar: o imperativo do verbo “cale-se”, a fim de demonstrar a censura contra a liberdade de expressão; o recipiente para abrigar o sangue-vinho tinto- das pessoas mortas durante o regime; e, sobretudo, um meio de a censura não evidenciar que os versos denunciam a violação do direito humanas pré-citadas. Apesar de atualmente, o país ser uma república democrática, a censura, infelizmente, se faz presente contra a arte. Assim, o maior desafio desta é resistir, para que ela não se torne um cálice, perpétuo, de vinho tinto de sangue.

Antes de tudo, é preciso ressaltar o caráter inovador inerente à espontaneidade da arte. Sob esta ótica, a sua existência é, indubitavelmente, indissociável do direito à liberdade de expressão, visto que se determinado tipo de produção artística for proibida, esta deverá respeitar a um filtro de conteúdo, o qual restringe a capacidade de criação do artista, por conseguinte, a arte. Nesta lógica, uma passagem do livro “Quincas Borba” escrito por Machado de Assis, recorda: “o melhor modo de apreciar a vista é ter o chicote na mão, já que, enquanto o vencedor fica com as batatas, o vencido é considerado bolhas sem direito à opinião”. Assim, tanto o regime ditatorial, quando o democrático são detentores do chicote e, para manter seus privilégios (batatas), retiram a capacidade, totalmente, criativa do artista de denunciar o sistema à sociedade, a qual foge dos parâmetros, indiscutivelmente,  restritos do sistema.

Outrossim, a música “Cálice” relata este caráter intrínseco da arte: “Quero lançar um grito desumano que é maneira de ser escutado”. Assim, a música retrata a visibilidade que a arte quer dar aos problemas, as quais o regime quer boicotar o direito de ser explicitado. Por exemplo as censuras: este ano, do filme Marighella, a qual retrata  a injustiça da ditadura, para que sua violência não se repita e do livro em quadrinhos, a qual queria desconstruir a homofobia na Bienal Internacional de São Paulo;  em 2017, a proibição da exposição do Museu Nacional de Arte Moderna, a qual pretendia desmoralizar a nudez e o apagamento do mural na 23 de Maio (SP) em que simbolizava a arte nascida na periferia.

Nota-se, portanto, que a arte é uma resistência aos padrões e a censura é uma tentativa de manter os privilégios ao restringir a visibilidade, para aqueles que nunca tiveram estes. Neste viés, o Governo Federal deve criar legislações, a qual torne crime qualquer restrição à arte, e instituições estaduais que assegurem que isso ocorrerá de fato, além de garantir, por meio de verbas específicas a este setor, o financiamento dos artistas, a fim que nenhum órgão seja capaz de interferir em sua manifestação artística inovadora. Pois, só, assim, não haverá boicotes com cálices cheios de sangue artístico.