Os desafios do combate ao trabalho escravo no século XXI

Enviada em 22/05/2018

A escravização contemporânea é um processo decisivamente reflexo da história do Brasil. Em seu livro, Macunaíma, Mario de Andrade cita o fato do brasileiro não ter caráter, explanando a não notoriedade de unificação territorial e ideológica do país e de sua população em uma coesão que se denominaria “povo”. Tal insígnio é fruto da imoralidade que muitos indivíduos apresentam em aderirem-se a normatização do país, na crença de estarem a níveis superiores de cultura ou etnia, devido ao seu poder aquisitivo.

Macunaíma é o heroi de nossa gente, negro que tornou-se branco e segue por inúmeras migrações em busca de uma melhor qualidade de vida. Tal fato é característica marcante dos brasileiros, que diante da disparidade socio-econômica são forçados a adentrarem no núcleo do Estado, principalmente nas regiões sudeste e centro-oeste, em busca de uma homogeneidade social pelo trabalho. Chocam-se, no entanto, com a realidade do local de chegada, onde não encontram condições mínimas de moradia e alimentação, tornando-se alvo de inescrupulosos fazendeiros e empresários que os captam para regimes de escravidão laboral.  Essa ocorrência é ilustrada pela recente abolição da escravatura, que completa 130 anos em 2018.  O branqueamento do personagem de Mario ao adentrar em um rio, explicita tal fato, já que a Lei Áurea tende as “clarear” o indivíduo e não a igualá-lo aos demais.

Segundo pesquisas recentes do IBGE, a população de baixa renda, sumariamente composta por negros e pardos, segue economicamente estratificada pelo parco desenvolvimento de políticas inclusivas no Brasil, visto que, no país ocorre um desfoque social de sua própria população em detrimento do crescimento econômico, causa primeira de seus principais problemas humanitários. Em vista disso, a chave da luta contra a escravidão laboral está nas mãos da população. Sem que haja indignação perante tal barbárie, não ocorrerá, por conseguinte, uma modificação do cenário.

Advêm-se a importância na divulgação das pesquisas demográficas do IBGE pela mídia, já que com tais dados, a população poderá exigir do Ministério do Trabalho uma maior fiscalização em áreas onde a ocorrência de tal processo for acentuada, juntamente às ONG’s, que são porta-vozes da mesma na atualidade. A descentralização de políticas públicas deve ocorrer em função de uma maior autonomia das instituições municipais, como os ESF’s (Estratégias de Saúde da Família), que poderiam assumir maior atuação social em conjuntura com a saúde, visto que, estão em contato direto com as famílias. Através da contratação de um maior número de assistentes sociais que acompanhariam-nas, reduziria-se em grande número não somente a escravização de indivíduos, mas também outras precariedades sociais, em direção ao então nascimento do povo brasileiro, que gesta indefinido e individualizado.