Os desafios do combate ao trabalho escravo no século XXI

Enviada em 23/06/2022

De acordo com o conceito de “Banalidade do Mal”, cunhado pela filósofa Hannah Arendt, quando uma atitude hostil ocorre constantemente, a sociedade passa a vê-la como banal. Sob essa óptica, a irracionalidade em relação aos desafios que contribuem para a permanência do trabalho escravo no século XXI, configura a trivialização da maldade, que, para Arendt, ocorre quando há falta de reflexão sobre os males ao redor dos indivíduos. Nesse viés, percebe-se que a inoperância do Poder Público e o silenciamento midiático contribuem para problemática.

A princípio, é válido destacar que o descaso governamental representa grande obstáculo para a resolução do trabalho escravo moderno. Nesse contexto, segundo o jornalista Gilberto Dimenstein, em seu livro “Cidadão de Papel”, o Brasil é marcado pela não aplicação prática dos mecanismos legais, como a Constituição de 1988. Dito isso, pode-se afirmar que permanência da escravidão contemporânea vai de encontro ao cenário postulado pelo jornalista. Essa perspectiva decorre da inércia governamental, que não realiza fiscalizações frequentes em locais de alta endemicidade do trabalho forçado, como em fábricas têxtis e no Arco do Desmatamento, na Amazônia Legal. Consequentemente, a “Casa-Grande” atual sente-se confortável para gozar da vulnerabilidade que acomete os trabalhadores, e desrespeitar o princípio da liberdade, conferido a eles pela Carta Magna.

Além disso, conforme o filósofo Pierre Bourdieu, o que foi criado para ser instrumento da democracia não pode ser convertido em mecanismo de opressão. Por esse prisma, observa-se que a mídia, ao invés de denunciar essa atrocidade, infelizmente, opta por praticar a indiferença, já que os jornais televisivos não promovem reportagens para gerar senso crítico. Devido a isso, os desafios para a abolição do trabalho compulsório moderno permanecem ocultos em uma realidade cruel que carece da visibilidade necessária para serem cessados.

Portanto, é de responsabilidade do Poder Estatal, por meio da Polícia Federal, promover uma Força Tarefa que vise uma fiscalização eficiente e constante, com ampla denúncia midiática, por meio do auxílio e fomento da gestão pública, com a finalidade de abolir definitivamente a existência da “Senzala” pós-moderna. Dessa forma, população poderá se ver livre do “Mal Banal” de Hannah Arendt.