Os desafios do combate ao trabalho escravo no século XXI
Enviada em 15/03/2023
Na obra “Angústia”, de Graciliano Ramos, é retratada a história do avô do prota-gonista Luís da Silva, que foi um senhor de escravos que, mesmo após a abolição da escravatura, continuou tratando os negros libertos como cativos. Fora da ficção, observa-se que essa ideologia escravista da elite perpetuou-se, fazendo com que casos de trabalhos análogos à escravidão ocorram até hoje. Nesse sentido, dois aspectos se destacam: de que maneira o poder está inserido nas relações sociais contemporâneas e como a desigualdade social corrobora o problema em xeque.
Em primeira análise, urge explicitar que, na coletividade atual, as relações de poder se encontraram estruturadas em microespaços, ou seja, nos laços sociais entre os indivíduos. Sob tal óptica, Michel Foucault define que o poder se manifesta em vínculos políticos assimétricos e atua sobre os corpos, privando-os ou conce-dendo-lhes liberdade sobre determinados assuntos. Assim, o desafio para comba-ter o trabalho escravo moderno reside em alterar esses microespaços, de maneira a torná-los menos desiguais e reduzir a imposição de poder sobre os corpos.
Outrossim, é indubitável que a desigualdade social deveras presente no hodierno é um catalisador para que situações de pessoas exploradas como escravos conti-nuem a ocorrer. Nesse prisma, cabe ilustrar o episódio do romance “Vidas Secas”, também de Graciliano Ramos, em que o protagonista Fabiano, um sertanejo pobre e ignorante em relação à escrita, percebe que seu patrão está lhe logrando na hora do pagamento, porém não há nada que ele possa fazer pois ele “desconhece o mundo das contas”. Portanto, torna-se evidente que a desigualdade social é um importante fator para o estabelecimento de uma relação de escravidão moderna.
Destarte, é mister do Estado tomar medidas para reverter o quadro atual. A fim de reduzir a assimetria das relações políticas, o Ministério da Educação e Cultura deve, por meio de verbas liberadas pelo Governo Federal, elaborar projetos de ações voluntárias nas escolas, gerando, com isso, uma maior alteridade nessas relações. Ademais, o Ministério do Desenvolvimento Social deve criar escolas em zonas rurais, democratizando o ensino e reduzindo casos de exploração como o de “Vidas Secas”. Somente assim, será possível interromper o pensamento escravista mostrado por “Angústia” e alterar os microespaços destacados por Foucault.