Os desafios do necessário isolamento social no Brasil em casos de pandemia

Enviada em 23/04/2020

Há dois anos, em sua análise anual de doenças prioritárias, a OMS apresentou a “Doença X”, isto é, uma grave enfermidade ainda desconhecida com potencial de pandemia. Hoje, a chamada COVID-19 já prenuncia consequências catastróficas para os sistemas de saúde mundiais e a macroeconomia caso não seja coibida por meio do isolamento social. Porém, implantá-lo efetivamente tem-se revelado um desafio no Brasil, cujo medo de falência amparado por pós-verdades pouco científicas justificariam essa baixa adesão.

A fim de compreender a questão, é crucial atestar: o distanciamento é consenso na área da saúde como forma mais eficaz de conter o avanço de doenças enquanto não há vacinas disponíveis, sendo, inclusive, vantajoso para a economia. Um estudo do MIT, utilizando A.I, analisou curvas da gripe espanhola de 1918 e seus efeitos econômicos nos EUA, concluindo que os estados que adotaram a quarentena mais rápido e com mais rigor se recuperaram melhor dos seus impactos. Todavia, em um país desigual como o Brasil, o distanciamento sem o devido aporte estatal se torna impraticável por maior parte da população, que é incapaz de parar de trabalhar, e por empresas menores, que correm risco de falir apesar de gerarem a maior parte dos empregos no país.

Nesse âmbito de insegurança financeira, a desinformação embasa a decisão de desrespeitar as recomendações oficiais. O viés de confirmação, isto é, a tendência humana de buscar apenas o que verifique suas crenças, é o alicerce da pós-verdade contemporânea e, em meio ao receio causado pela fragilização da economia, o que faz o tupiniquim padrão de renda média-baixa, com orçamento em arrocho e sob risco de ver seu empregador falir, acreditar nas “fake news” ou declarações falaciosas de políticos que desmoralizam os órgãos de saúde e cientistas como mentirosos ou corruptos. Quando os trabalhadores se expõem aos riscos da epidemia, agravam-se seus efeitos e desloca-se para o indivíduo a responsabilidade do governo de instituir medidas que mitiguem os impactos da doença sem penalizar a pequena empresa ou o empregado.

Dessarte, atesta-se que, embora a ciência defenda o isolamento social, o subdesenvolvimento brasileiro cria resistência entre a população, que fundamenta seus receios em negacionismo científico e é incentivada por um poder central negligente. Portanto, é preciso que o Estado e o Setor Privado, responsáveis pela economia do país, por meio de PPPs, instituam medidas de amortecimento econômicas, a exemplo de incentivos fiscais ao home-office, isenção de certos impostos ou facilitação de crédito, a fim de impelir o distanciamento horizontal enquanto este for necessário. Somente assim, a recuperação da “Doença X” ocorrerá em consonância com a realidade social do país.