Os desafios do necessário isolamento social no Brasil em casos de pandemia

Enviada em 27/04/2020

No livro " História do medo no Ocidente" de Jean Delumeau, é demonstrado que o medo pode ser utilizado para manipulações de situações de poder com finalidades políticas, possibilitando o controle da reação das pessoas frente a situações de crise, tornando isso uma cultura. Entretanto, Delumeau afirma que sem o medo não haveria a perpetuação das espécies, pois também é uma ferramente de sobrevivência. Nesse contexto, em uma sociedade marcada pela cultura do medo os desafios do necessário isolamento social no Brasil em casos de pandemia são agravados pelo temor de uma crise econômica, social e sanitária.

A priori, Jean Delumeau definiu em seu livro que “sem medo, nenhuma espécie teria sobrevivido”. Dessa forma, o medo é utilizado com fins partidários para estabelecer o controle sobre os indivíduos assustados com os números exorbitantes de óbitos e o risco de uma crise econômica iminente, para manipular suas ações em prol da “sobrevivência”. Contudo, manifestações que ocorreram no Brasil pedindo o fim da quarentena em abril de 2020, temendo a quebra da economia, colocam em risco a saúde e sobrevivência de toda população. Dessa maneira, a espécie humana tem sua sobrevivência ameaçada pois o medo dos problemas gerados pela quarentena pode agravar situações de desigualdades e coloca em risco pessoas mais vulneráveis financeiramente para sobreviver em isolamento social.

Ademais, o jornal da UOL publicou a fala de um abulante que exemplifica o temor das populações em situação de vulnerabilidade econômica da vinda de uma crise social e financeira em meio a uma sanitária, em que José Maria diz que “se não morrer desse vírus, morro de fome”. Desse modo, as disparidades econômicas e sociais se tornam um entrave para um confinamento seguro a todos, pois conforme aponta uma pesquisa da BBC News Brasil ’’ 92% das mães nas favelas dizem que faltará comida após um mês de isolamento". Assim, a pandemia torna o isolamento social um privilégio de classe, em que a classe mais baixa precisa escolher o que mais é mais assustador o vírus ou a fome.

Em síntese, uma sociedade pautada no medo e na luta pela sobrevivência agrava os desafios do necessário isolamento social no Brasil em casos de pandemias. Logo, é necessário que o Estado crie medidas de auxílio econômico para os mais afetados pelo isolamento, por intermédio de projetos, que possam garantir a sobrevivência dessas pessoas. Isso deve ser feito por meio de depósitos de uma renda mensal através de um programa com a finalidade de assegurar um salário que possa garantir as necessidades básicas dessas pessoas. Assim, vidas como as de José Maria poderão ser poupadas e a fala de Delumeau “sem medo, nenhuma espécie teria sobrevivido” contestada.