Os desafios do necessário isolamento social no Brasil em casos de pandemia

Enviada em 21/06/2020

Giovanni Bocaccio, em sua obra ‘‘Decameron’’, retrata o caminho percorrido por jovens que, em meio à epidemia devastadora de peste negra,se refugiam em uma casa no campo. Embora seja ficção, o livro de Bocaccio remonta a crise enfrentada, hoje, pelo Brasil: contexto de pandemia, e com ele, o necessário isolamento social. Contudo, nota-se o império de obstáculos na contenção do fluxo de indivíduos, realidade proveniente da negligência social, alicerçado à ineficiência estatal em efetivar princípios constitucionais, o que torna importante engendrar meios capazes de combatê-la.

É preciso perceber, inicialmente, que durante a gripe de 1918, uma cidade dos Estados Unidos, Saint Louis, estabeleceu o distanciamento social, enquanto a Filadélfia demorou a fazê-lo e, assim, obteve uma taxa de mortalidade expressivamente maior. Nesse sentido, análoga à situação vivida pela Filadélfia, a negligência com as políticas de isolamento tem provocado surtos virais latentes. Tal configuração tem raízes nos comportamentos irresponsáveis da sociedade, aliado à concepção de que as doenças são meras utopias. Sob tal perspectiva, o sociólogo Pierre Bordieu, com a Teoria do Habitus, reflete a existência de padrões impostos, naturalizados e, subsequentemente, reproduzidos. De fato, percebe-se a repetição de ideias de infalibilidade dos sujeitos, ilusão que leva à banalização do isolamento social e, por isso, necessita ser combatida com veemência.

Cabe reconhecer, ainda, que muitos cidadãos brasileiros sobrevivem de atividades informais e, em meio à pandemia, continuam dependendo de tais trabalhos. Nessa direção, a situação vigente de subempregos e vulnerabilidade econômica evidencia a imobilidade do Estado em assegurar os direitos trabalhistas dos sujeitos que, no contexto de expansão de enfermidades, encontram-se subjugados ao perigo. Tal conjuntura rompe, via de regra, o ‘‘Contrato Social’’ proposto por John Locke, o qual define como função estatal a plena garantia de direitos básicos. Desse modo, a mudança  de posicionamento governamental é indeclinável, haja vista a crise sanitária global.

Compreende-se, destarte, que a ampliação do isolamento social significa proteger a vida humana. Portanto, o Ministério da Saúde, em conjunto com o da Cidadania e os órgãos federais, deve elucidar a relevância da prevenção durante pandemias, bem como auxiliar os trabalhadores menos favorecidos. Tal projeto deve ser feito por meio de diretrizes econômicas e educativas, tais como propagandas publicitárias que abordem a relevância do confinamento para achatar a curva de mortalidade, inserindo o tema nos filmes e novelas, além da expansão do suporte financeiro mensal à trabalhadores informais e desempregados. O intuito disso será construir um meio social baseado na primazia da saúde e equidade. Assim, será possível que o cenário da obra de Bocaccio torne-se mais exíguo no Brasil.