Os desafios do planejamento familiar no Brasil
Enviada em 31/10/2019
No filme “Preciosa”, a protagonista sofre com a maternidade precoce, concebida em um cenário de extrema vulnerabilidade social. Assim como na ficção, no Brasil, muitas jovens de classe baixa enfrentam a difícil realidade de serem mães muito cedo. Nesse contexto, torna-se evidente que a falta de informação e de um núcleo familiar estável contribuem para um quadro cada vez mais alarmante de saúde pública.
A princípio, é indubitável que o acesso restrito a programas de educação sexual nas escolas favorece a ocorrência de quadros de gravidez indesejada. Nesse sentido, destaca-se um estudo de 2019 da Fundação Abrinq, que comprovou que quase 30% das mães adolescentes, com até 19 anos, não concluíram o ensino fundamental, o que sugere que o contato com conteúdos relacionados à prevenção da gravidez precoce – normalmente ministrados na escola - não ocorreu, de modo a favorecer esse quadro. Como desdobramento, essas jovens terão condições limitadas de ascensão social – posto que a escolarização contínua é pré-requisito para diversas vagas de emprego -, o que leva a um ciclo de perpetuação da pobreza, exclusão e desigualdade social.
Além disso, a falta de suporte familiar leva muitas meninas a se sujeitar a relacionamentos abusivos, por medo de não conseguirem se manter financeiramente sozinhas ou de precisarem recorrer à prostituição. Como consequência disso, casam-se muito novas, enfrentando a difícil realidade de serem mães e esposas muito antes do que sonhavam, o que resulta na dependência financeira do companheiro. Em consequência disso, o Brasil ocupa o quarto lugar no mundo em números absolutos de mulheres casadas antes dos 15 anos, como pode comprovar uma pesquisa da UNICEF, realizada em 2011. Sob tal ótica, atividades de caráter preventivo e educativo tornam-se cada vez mais necessárias para combater essa difícil situação.
Logo, cabe às escolas garantir o acesso de adolescentes e de jovens a disciplinas voltadas para a educação sexual e para o planejamento familiar. Essa conquista pode ser viabilizada ao se pressionar o Ministério da Educação para inclusão na grade curricular de conteúdos relacionados à saúde, como ações que promovam os direitos, a autonomia e o empoderamento dos estudantes frente ao planejamento familiar, para que se possa, assim, reduzir o índice de gravidezes não planejadas. Cabe também identificar os fatores que levam à evasão escolar de adolescentes, a fim de mitigá-la e garantir que estas tenham acesso aos conteúdos voltados à educação sexual. Desse modo, o Brasil não terá tantas jovens de até 19 anos enfrentando o mesmo problema que a protagonista do filme “Preciosa”.