Os desafios do planejamento familiar no Brasil
Enviada em 26/05/2020
No filme “Preciosa”, a protagonista sofre com a maternidade precoce, concebida em um cenário de extrema vulnerabilidade social. Assim como na ficção, no Brasil, muitas jovens de classe baixa enfrentam a difícil realidade de serem mães muito cedo devido a falta de planejamento familiar. Nesse contexto, torna-se evidente que a ausência de informação e de um núcleo familiar estável contribuem para um quadro cada vez mais alarmante de saúde pública.
A princípio, é indubitável que o acesso restrito a programas de educação sexual nas escolas favorece a ocorrência de quadros de gravidez indesejada. Nesse sentido, destaca-se um estudo da Fundação Abrinq, que comprovou que quase 30% das mães adolescentes, com até 19 anos, não concluíram o ensino fundamental, o que sugere que o contato com conteúdos relacionados à prevenção da gravidez precoce – normalmente ministrados na escola - não ocorreu, de modo a favorecer esse quadro. Como desdobramento, essas jovens terão condições limitadas de ascensão social, posto que a escolarização contínua é pré-requisito para diversas vagas de emprego, o que leva a um ciclo de perpetuação da pobreza, exclusão e desigualdade social.
Além disso, a falta de suporte familiar leva muitas meninas a se sujeitarem a relacionamentos abusivos, por medo de não conseguirem se manter financeiramente sozinhas ou de precisarem recorrer à prostituição. Como consequência disso, casam-se muito novas, enfrentando a difícil realidade de serem mães e esposas muito antes do que sonhavam, o que resulta na dependência financeira do companheiro. Em decorrência disso, o Brasil ocupa o quarto lugar no mundo em números absolutos de mulheres casadas antes dos 15 anos, como pode comprovar uma pesquisa da UNICEF. Sob tal ótica, atividades de caráter preventivo e educativo tornam-se cada vez mais necessárias para combater essa difícil situação.
Logo, cabe às escolas garantir o acesso de adolescentes e de jovens a disciplinas voltadas para a educação sexual e para o planejamento familiar. Para tanto, o Ministério da Educação deve incluir na grade curricular educacional conteúdos relacionados à saúde e à ações que promovam os direitos, a autonomia e o empoderamento dos estudantes frente ao planejamento familiar, a fim de que o índice de gravidezes não planejadas seja reduzido. Cabe também identificar os fatores que levam à evasão escolar de adolescentes, a fim de mitigá-la e garantir que estas tenham acesso aos conteúdos voltados à educação sexual. Desse modo, o Brasil não terá tantas jovens enfrentando o mesmo problema que a protagonista do filme “Preciosa”.