Os desafios enfrentados pelos catadores de materiais recicláveis no Brasil
Enviada em 14/10/2021
Publicada em 1960, a obra “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, narra em forma de diário como a catadora de papéis e metais teve uma vida marcada pelo preconceito, sofrimento e invisibilidade social na cidade de São Paulo. Apesar do tempo transcorrido desde a sua publicação, a temática abordada se mantém preocupantemente atual, tendo em vista a realidade vivenciada pelos catadores de materiais recicláveis no Brasil e o descaso governamental diante de suas dificuldades, levando-os a sofrer diariamente com os danos físicos e psicológicos provenientes dessa profissão tão pouco reconhecida.
Nesse aspecto, o documentário “Oceanos de Plástico”, de 2016, aborda de forma clara e objetiva os prejuízos que o destino inadequado do lixo pode provocar, entre eles a morte de inúmeros animais marinhos. Assim, fica evidente que o trabalho realizado pelos recolhedores de resíduos é de extrema importância para que esses produtos são cheguem à natureza e para que as cidades se mantenham limpas. No entanto, esses indivíduos, além de não receberem nenhum apoio governamental, possuem salários muito precários, trabalham sem o mínimo de segurança e estão sempre correndo o risco de adquirir infecções diversas.
Dessa forma, conforme a médica e professora da Universidade de São Paulo, Cecília Prado, o manuseio diário do lixo urbano pode levar o catador a adquirir doenças como o tétano, a hepatite B e a meningite, por exemplo, além de provocar danos relacionados ao excesso de peso, como a lombalgia. Ademais, é muito grave o fato dessas pessoas sofrerem constantemente com a discriminação e com os xingamentos de pedestres e motoristas, por estarem ocupando a calçada ou a rua, fatores que contribuem diretamente com o aumento do estresse e da ansiedade desses trabalhadores.
Portanto, com o intuito de assegurar a dignidade dos catadores de materiais recicláveis e garantir que possam ter uma vida com maior qualidade do que a relatada por Carolina Maria de Jesus em seu diário, é necessário que o Ministério do Trabalho, em parceria com o Ministério da Cidadania, promova programas de ajuda financeira urgentemente. Isso deve ser feito por meio do direcionamento de uma parcela dos altos impostos cobrados da população para a disponibilização de equipamentos de proteção, manutenção das carrocinhas e disponibilização de cestas básicas, pelo menos. Afinal, são eles que contribuem diretamente com a qualidade de vida nas cidades e com a preservação do meio ambiente.