Os desafios enfrentados pelos catadores de materiais recicláveis no Brasil

Enviada em 14/10/2021

O filósofo Kant, em seus estudos sobre os imperativos categóricos, afirmou que as pessoas devem ser valorizadas e tratadas com dignidade. No entanto, percebe-se que, no Brasil, a tese do intelectual destoa da realidade dos catadores de materiais recicláveis, uma vez que esses indivíduos são, muitas vezes, banalizados e inferiorizados pela massa social, apesar da relevância na preservação ambiental e ecológica realizada por eles. Nessa sentido, emerge um desafio complexo em virtude da ineficiência normativa e da falta de entendimento popular, sendo substancial valorizar esse grupo social.

Em primeiro plano, a ausência de efetividade legislativa caracteriza-se como causa latente da questão. A esse respeito, o escritor Gilberto Dimenstein defende, na obra “Cidadão de Papel”, que muitas leis pouco atuam na realidade e, por vezes, permanecem idealizadas no papel. Sob essa análise, é evidente que a indiferença em relação ao trabalho dos catadores é um reflexo, em parte, na inoperância do governo, o qual não pratica ações valorizadoras da atitude das pessoas que recolhem o lixo urbano e contribuem com a integridade da natureza. Diante disso, essa situação é fomentada, seja pela ausência de retribuição financeira estatal compatível com o trabalho exaustivo dos coletadores de resíduos, seja pela falta de garantia governamental da proteção do trabalhador catador, como nos acidentes com objetos cortantes e nos diretos básicos, por exemplo, a alimentação devida. Assim, cabe ao Estado brasileiro atuar efetivamente na valorização financeira e integral do coletador, reduzindo os desafios por ele enfrentados.

Além disso, cabe apontar a carência do pleno conhecimento da população acerca da atividade sustentável dos coletadores. Nesse contexto, o sociólogo Émile Durkheim alega que a sociedade só poderá agir quando entender a realidade e o contexto que a cerca. Nessa lógica, os diversos entraves que os catadores sofrem são ampliados com a negligência e ignorância social, de modo a consolidar uma massa popular que, frequentemente, não se mobiliza na causa desses trabalhadores. Tal cenário banalizado, é visualizado, ora na falta de explanação escolar na matéria de biologia sobre a importância de reclicar e coletar o lixo, ora pela ausência de debates públicos que discutam a realidade laboral enfrentada pelos coletadores, bem como a desvalorização a eles associada.

Portanto, a fim de promover uma redução dos desafios que contornam a vida dos catadores e ampliar a sua consideração, cabe ao Ministério do Trabalho formular uma campanha social que esclareça a relevância deste, por meio do relato anônimo dos que realizam esse serviço de coleta. Ademais, essa campanha deve realizar periódicos debates em prefeituras para discutir os problemas enfrentados com a coletividade. Dessa maneira, a ideia de Kant poderá ser verificada no Brasil.