Os desafios enfrentados pelos catadores de materiais recicláveis no Brasil
Enviada em 21/10/2021
A obra “Quarto de despejo”, da Carolina Maria de Jesus, relata os dramas de uma catadora de materiais reciclados, moradora de uma favela em São Paulo. O livro demonstra as frustações de Maria diante da indiferença das autoridades e da sociedade à sua condição social e exemplifica os dilemas sofridos por esses profissionais, como a miséria, fome e animalização dos indivíduos inseridos nesse contexto. No entanto, esse descaso gera consequências desastrosas, não só para essa classe de trabalhadores, mas também para o meio ambiente e, por isso, medidas urgentes se fazem necessárias.
Em primeiro lugar, deve-se dizer que os catadores sofrem, penosamente, com a negligência do sociedade. Exemplo disso foi a forma como ocorreu o fechamento do lixão de Jardim Gramacho em 2012, o maior lixão da América Latina: segundo o jornal El País, não houve nenhuma política de inclusão social para os trabalhadores daquele local e retiravam dali o seu sustento. Realidades como essa ressaltam o quanto a vida humana tem sido desvalorizada na atualidade pois, além da falta de ação do Estado, não há pressão da população para que sejam feitas mudanças significativas. É fato que esta situação não pode se perpetuar e cabe às instituções de ensino lutarem para alterar essa cultura egoísta. Assim, as próximas gerações terão a chance de viver em uma comunidade mais justa.
Em segundo lugar, uma vez que a profissão de catador de recicláveis é depreciada, a quantidade de resíduo tende a aumentar, o que provoca grandes desequilíbrios ambientais. De acordo com o sociólogo Zigmunt Bauman, a sociedade pós-capitalismo industrial adotou o consumo como tema central, de modo que um desejo é, rapidamente, substituído por outro mais novo e, supostamente, melhor. Essa mudança de comportamento acetuou a geração de lixos e agravos ao meio ambiente com o descarte inapropriado. Nesse contexto, a catação de insumos para reciclagem torna-se ainda mais importante para amenizar esses impactos. Todavia, sem políticas de valorização dos catadores e direitos trabalhistas que lhes garantam alguns benefícios decorrentes dos riscos relativos à atividade, o mais razoável é que esses prejuízos piorem e que toda a nação sofra com os efeitos.
Fica evidente, portanto, que a desatenção do Estado com os profissionais da reciclagem geram resultados nocivos para toda a sociedade brasileira. Para amenizar esses dilemas, o Ministério da Educação (MEC) deve fomentar ações instrutivas sobre o processo de catação de recicláveis, por meio de palestras e gincanas nas escolas, com o objetivo de enobrecer o profissional de catação e conscientizar as futuras gerações sobre o consumo consciente e a justiça social. Para tanto, o MEC deve premiar as instituições que se empenharem nessas iniciativas como forma de reconhecer o esforço. Somente com a educação pode-se enxergar um futuro melhor.