Os desafios enfrentados pelos catadores de materiais recicláveis no Brasil
Enviada em 28/10/2021
Nas regiões rurais da Índia, ainda persiste a tradição repugnante da divisão de castas da sociedade, das quais a mais emblemática é, sem dúvidas, a classe dos “intocáveis”. Uma de suas tarefas, na terra dos índios, é de recolher as fezes das fossas a céu aberto de castas superiores. Entretanto, há uma condição: deve ser a mãos nuas. Tal cenário serve como metáfora ao status dos catadores no Brasil atual, pois eles também, além de terem uma ocupação insalubre, ainda têm que suportar o descaso e a humilhação por parte da população. É necessário, portanto, analisar sob as óticas econômicas e políticas os desafios que esse grupo enfrenta na hodiernidade.
Mormente, é evidente que esse nicho de trabalho tem um futuro incerto devido aos novos rumos da política sustentável. Isso ocorre, porque a reciclagem vem perdendo espaço diante dos outros dois “Rs”: o “reutilizar” e o “reduzir”. Acerca disso, portais de divulgação científica, como a Nature e o Kurgetzagt, alertam que uma grande parte dos materiais recicláveis apresentam pouco retorno econômico à indústria e, por isso, há pouco interesse em seu tratamento. De fato, essa conjuntura complica o status dos catadores diante do poder público, o qual deve equilibrar incentivos tanto a alternativas à reciclagem quanto a esses profissionais, cujo devir é ameaçado pelo desemprego estrutural.
Outrossim, a situação desses trabalhadores ainda é agravada pela falta de organização política do setor. Sobre isso, dados do Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis (MNCR) alertam que menos de 20% da classe está filiada à instituição. Por conseguinte, há uma carência de medidas estatais voltadas ao bem-estar e à segurança dos recolhedores. Caso houvesse uma representação devidamente estabelecida, seria possível mobilizar os governantes a favor dessa causa. Aliás, tais compensações a respeito da insalubridade tornam-se ainda mais urgentes devido à infeliz recorrência do descarte inadequado de certos itens pela população, como cacos de vidro soltos no lixeiro.
Destarte, desvendados os dilemas fiscais e políticos dessa categoria, é papel de cada empresa responsável pelo recolhimento de lixo a nível municipal, por meio da equipagem das frotas de caminhão de lixo com balanças eletrônicas, cobrar uma taxa percentual por cada grama de lixo não-reciclável descartado por bairro, de forma a, simultaneamente, incentivar a redução do consumo e a escolha por alternativas sustentáveis, que garantirão a atuação dos catadores. Por fim, também é dever do MNCR, mediante o recolhimento de assinaturas, mais precisamente de 1% do eleitorado para uma proposta de iniciativa popular, propor ao Congresso nacional uma “Bolsa EPI”, que forneça gratuitamente equipamentos de proteção individual a catadores, regularizados ou não, e, dessa forma, amenizar os perigos decorrentes do manuseio do lixo e garantir dignidade aos “intocáveis” brasileiros.