Os desafios enfrentados pelos catadores de materiais recicláveis no Brasil

Enviada em 30/10/2021

Para o sociólogo canadense Erving Goffman, o estigma social é definido enquanto marca ou sinal que designa o seu portador como desqualificado ou menos valorizado; é a situação do indivíduo que está inabilitado para aceitação social plena. Essa concepção coincide com a realidade dos catadores de lixo no Brasil pois, devido a falta de visibilidade política concomitante com a precária jornada de trabalho, resulta na banalização destes indivíduos como cidadãos. Ademais, é preciso salientar ainda, que a sociedade atual carece de informações a respeito do processo de reciclagem no país, o que gera um estranhamento em torno da problemática.

Em primeiro plano, faz-se necessário mencionar que as questões políticas revelam ser antagonistas aos coletores de lixo. A catação de materiais recicláveis foi legitimada como profissão em 2002 pelo extinto Ministério do Trabalho, no entanto, não há uma fiscalização rigorosa no que se refere a segurança do trabalho destes autônomos. Devido a essa exclusão, os catadores de lixo tornam-se reféns de métodos prejudiciais à saúde, tais como o carregamento excessivo de peso em suas carroças, manejo de produtos químicos sem devida proteção, etc.

Em segunda análise, ressalta-se que há, no Brasil, uma evidente falta de informações quanto à reciclagem. Nesse sentido, o filósofo alemão Schopenhauer defende que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo. Dessa forma, é notório, que, se as pessoas não têm acesso à informação sobre como descartar corretamente o lixo doméstico e maneiras de como auxiliar o trabalho dos catadores de lixo, sua visão será limitada, resultando na propagação da ignorância e disseminação de atitudes excludentes.

Torna-se imperativo, então, desenvolver medidas que ajam sobre o problema. Como solução, é preciso que as escolas, em parceria com a prefeitura, promovam um espaço para rodas de conversas e debates sobre a importância da reciclagem e ações que possam auxiliar o trabalho dos catadores - vide, separação correta dos lixos, evitar descartar materiais prejudiciais à saúde dos trabalhadores, etc. Tais eventos podem ocorrer no período extraclasse, contando com a presença dos professores e os próprios coletores. Além disso, tais eventos não devem se limitar aos alunos, mas ser abertos à comunidade, a fim de que mais pessoas compreendam questões relativas ao importante papel dos coletores e a reciclagem na sociedade - afinal, ações coletivas têm imenso poder transformador. Por fim, é preciso que a comunidade brasileira olhe para a problemática com mais empatia e menos estigma, pois, como descreveu o poeta Paulo Leminski: “Em mim, eu vejo o outro.”