Os desafios enfrentados pelos catadores de materiais recicláveis no Brasil

Enviada em 19/11/2021

De forma sucinta, Aldous Huxley, em “Admirável mundo novo”, cria novas modalidades de dividir a população em castas, a partir da “fabricação genética” de indivíduos, em que as camadas inferiores ficam com os piores serviços da sociedade, para lidar com sujeira, depreciação moral e desgaste físico. Todavia, felizmente o livro trata-se de uma distopia, mas o traço marcante que ultrapassa a barreira da ficção é a realidade de pessoas reais que trabalham nos termos citados, com foco nos catadores de materiais recicláveis. No Brasil, esse setor da população sofre com muitas vicissitudes de ordem social, econômica, trabalhista e moral, pois não lhes é dado o respeito devido ou a relevância pelo que desem-penham na sociedade: uma nova esperança para os compulsórios e poluentes descartes humanos.

Nesse contexto, a neurociência defende a preferência cerebral pela zona de conforto, a fim de poupar energia, por isso é difícil tomar uma atitude consciente com relação ao meio ambiente e ao descarte de materiais, ainda mais com que lida com o problema, como se o entulho sumisse magicamente uma vez que é depositado na lixeira. Assim, tal posicionamento aliena a sociedade, haja vista as leis flexíveis, as garantias ridículas e o tratamento nefasto que os catadores recebem até dos órgãos que os deviam proteger. Logo, o trabalho duro, intermitente e exaustivo, longe de ser recompensado devidamente, oferece insegurança para a vida do trabalhador, a maioria muito modesta e vulnerável para exigir ou reconhecer direitos inalienáveis, e uma vida social repleta de discriminações de pessoas desprezíveis.

Outrossim, o italiano Italo Calvino, no século XX, pensou na cidade de “Leônia”, a qual é bastante semelhante à realidade mundial, pois os cidadãos de Leônia compravam objetos novos todos os dias e descartavam os antigos, a sociedade procurava se renovar, mas de forma errônea e fútil. Ademais, esse relato mantém relação com a obsolescência programada de hoje e igualmente não menciona a importância social e ecológica dos catadores. Entretanto, essa alienação corrobora com uma estratificação social esdrúxula, em que os serviços, os direitos e as pessoas dos catadores são ignorados por razões de insalubridade, abuso da mão de obra, falta de atuação legal ou mesmo desprezo humano, tornando uma vida já insegura e sofrida bem mais complicada.

Portanto, a partir dos argumentos supracitados, compete ao governo, em parceria com a mídia, asse-gurar os direitos dos catadores de recicláveis, bem como manifestar a importância pública do trabalho desempenhado. Isso pode ser feito por meio da criação de sindicatos para cobrar ações do Estado e do desenvolvimento de campanhas midiáticas sobre o trabalho realizado e também como seria a realidade se ele inexistisse. Dessa forma, o alheamento da cidade de Leônia será um exemplo a ser evitado e, finalmente, a parcela de catadores terá direitos e garantias asseguradas por seu trabalho honroso.