Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea
Enviada em 10/06/2020
Na obra de “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo, o autor constrói uma narrativa em que o meio no qual os personagens habitam determina fatalmente as suas personalidades e seus destinos. De maneira semelhante, a atual conjuntura global, da qual o Brasil não é exceção, não determina, mas contribui fortemente para o agravamento de problemas como o transtorno de ansiedade. Combater esse problema requer, necessariamente, compreender suas causas, que se relacionam tanto com a cultura de trabalho do Século XXI quanto com as relações com o mundo digital.
Cabe considerar, primeiramente, o efeito das relações modernas de trabalho na saúde mental do indivíduo. Segundo o filósofo Byung-Chul Han, em seu livro “A Sociedade do Cansaço”, a atual cultura de autoajuda, que prega uma priorização do trabalho sobre as outras esferas da vida é forte contribuinte para a prevalência de doenças mentais como ansiedade e depressão. No cenário brasileiro, esse comportamento é agravado pela crise financeira, que gera insegurança financeira e medo do desemprego, sentimentos que por si só podem trazer ansiedade e que só agravam as consequências da cultura descrita pelo autor.
Ademais, o cenário da ansiedade é agravado ainda mais porque uma das formas mais evidentes de lazer no mundo contemporâneo, o uso de redes sociais, também é um fator que agrava esse problema. De acordo com uma reportagem da BBC Brasil, as novas mídias digitais podem ser danosas para a saúde mental dos indivíduos, em especial a de jovens, uma vez que permite ao usuário fazer comparações da sua realidade com as postagens de outras pessoas, que apresentam apenas um recorte da realidade delas. Uma vez que a maior parte das pessoas não é apropriadamente educada para reconhecer o que é real ou não no mundo digital, esse tipo de comparação é também um fator agravante de transtornos como ansiedade, já que, pela percepção limitada do usuário, a vida de todos parece perfeita, mas ele conhece bem os seus problemas diários.
Nota-se, portanto, a necessidade de lidar com as raízes da ansiedade no mundo contemporâneo. Para isso, o Ministério da Educação deve estimular o aprendizado sobre o uso apropriado das mídias digitais por meio da inclusão de matérias de educação virtual no currículo escolar, para que jovens e adolescentes aprendam desde cedo a compreender as armadilhas das redes sociais para a saúde mental. Além disso, o Ministério da Cidadania deve ampliar o acesso de trabalhadores a profissionais de saúde mental, como psiquiatras e psicólogos, por vias da criação de uma rede de apoio de profissionais especializados. Assim, será possível que cenários como o da obra de Aluísio de Azebedo sejam menos naturais no mundo contemporâneo.