Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea

Enviada em 22/07/2020

No filme “O lado bom da vida” é retratada a vida de Pat Solitano, protagonista que perdeu quase tudo, incluindo sua casa, emprego e casamento, por conta das suas crises de ansiedade. Não diferente da ficção, tal transtorno tem fomentado diversas problemáticas na vida social e pessoal da sociedade contemporânea e, portanto, precisa ser combatido. Entretanto, tal combate enfrenta relevantes desafios, tais como a constante cobrança social e os entraves para o tratamento da ansiedade.

É imprescindível analisar, de início, a sociedade de autocobrança -e, consequentemente, de decepções- instalada na contemporaneidade. Acerca disso, o filósofo coreano Chul-Han disserta, em seu livro “Sociedade do cansaço”, sobre a sociedade do desempenho, na qual indivíduos são, segundo o autor, “empresários de si mesmos”. Isso porque se tornou necessária a demonstração do desempenho, da felicidade e da produtividade, seja na vida pessoal ou na profissional. Nessa perspectiva, formam-se pessoas que se consideram impassíveis de erro ou tristeza, o que contribui para a não aceitação de escolhas errôneas e de defeitos, os quais são inerentes ao ser humano. Desse modo, por não haver a compreensão de si mesmo, pequenos impasses do cotidiano tomam proporções exageradas e contribuem para o crescimento da ansiedade,a qual é favorecida com a sociedade que não se permite ser humana, mas sim uma máquina produtiva e impassional.

Outrossim, nota-se que os empecilhos para o tratamento da ansiedade apresentam-se como desafios para o combate de tal doença. Nesse contexto, uma das dificuldades é a falta de investimentos na área de saúde mental, comprovada por dados, fornecidos pelo Ministério da Saúde, os quais revelam que apenas 10% dos recursos das Secretarias Municipais corroboram para atendimentos nesse âmbito. Com base nisso, a população enfrenta escassos atendimentos psicológicos e de baixa qualidade, além da falta de informação e esclarecimento sobre tal transtorno. Em adição a isso, luta-se contra o preconceito e o desconhecimento sobre a ansiedade, a qual é tratada, muitas vezes, como “frescura”, o que agrava a situação e problematiza o tratamento. Dessa forma, as premissas precipitadas e equivocadas sobre tal doença favorecem seu alastramento e contribuem para os dados atuais obtidos pela Organização Mundial da Saúde: 4,4% da população mundial sofrem de ansiedade.

Diante disso, urge que o Ministério da Saúde e o da Economia promova melhores condições de atendimentos às pessoas com ansiedade. Para isso,uma maior parcela dos impostos arrecadados deve ser destinada tanto para os atendimentos populares contra a ansiedade, quanto para palestras socioeducativas com psiquiatras, a fim de que a sociedade tenha um acompanhamento adequado no combate à ansiedade e obtenha a consciência necessária para desconstruir preconceitos.