Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea
Enviada em 17/07/2020
Uma postura destituída de empatia perante o sofrimento alheio. Essa é a imagem presente no quadro “O grito”, do pintor Edvard Munch, pois, na construção dessa arte expressionista, vê-se, ao fundo da tela, personagens que se mostram indiferentes à angústia evidenciada pela figura humana do plano central. Entretanto, essa cena não se limita ao âmbito artístico, já que as vítimas da falta de combate à ansiedade na sociedade contemporânea vivem algo semelhante, tendo em vista que elas têm sido esquecidas por setores governamentais e sociais. Sob essa ótica, cabe analisar os aspectos políticos e culturais que envolvem essa questão no Brasil.
Primeiramente, pontua-se que o Poder Público mostra-se negligente ao não combater o aumento da ansiedade. Isso porque há, por parte dos órgãos executivos, uma ineficiência quanto ao processo de investimento financeiro, uma vez que faltam verbas para ampliação da contratação de psiquiatras pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que prejudica a democratização do diagnóstico e, por conseguinte, o direito à saúde dos cidadãos. Sendo assim, nota-se que o governo não tem garantido o bem-estar de todo o coletivo, evidenciando, dessa forma, a ausência de consolidação dos princípios fundamentais, alicerçados nos ideais iluministas do século XVIII em prol da democracia.
Também, observa-se que o silenciamento social frente à ansiedade apresenta-se como fator agravador desse quadro negativo. Contudo, parte da população tem demonstrado certa inércia diante desse cenário, por acreditar que são majoritários os segmentos políticos contrários à criação de leis mais rígidas, posto que a legislação em vigor, por ser considerada branda, não tem inibido a venda ilegal de medicamentos tarja preta sem prescrição devida, podendo gerar, então, o agravamento dos quadros clínicos. Recorrendo aos estudos da cientista política Elisabeth Noelle-Neumann para explicar esse fenômeno, contata-se que, para evitarem conflitos com grupos dominantes, alguns indivíduos tendem a fortalecer uma “espiral do silêncio”, permitindo, assim, a manutenção de alguns entraves.
Ressalta-se, portanto, que a falta de combate à ansiedade deve ser superada. Logo, é necessário exigir do Estado, via debates em audiências públicas, investimento financeiro, priorizando verbas para a contratação de psiquiatras pleo SUS, com o objetivo de tonar democrático o diagnóstico efetivo. Ademais, é essencial estimular a população, por intermédio de campanhas midiáticas produzidas por organizações não governamentais, sobre a importância de haver o engajamento coletivo para a ruptura de discursos dominantes, potencializando, assim, a elaboração de um ordenamento jurídico mais rigoroso que iniba a venda, sem receita médica, de medicamentos tarja preta. Desse modo, o “grito” - diferentemente do da obra de Munch - poderia romper o “silêncio” dos resignados.