Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea

Enviada em 24/07/2020

Segundo o filósofo polonês Zygmunt Bauman, a sociedade atual vive uma “modernidade líquida”, na qual tudo é efêmero e o amanhã é incerto. Diante dessa perspectiva, nota-se uma justificativa para tan-

ta angústia gerada nos indivíduos modernos, pois, mesmo com a correria diária para alcançar seus objetivos, a sociedade líquida reconhece sua instabilidade - nada mais é garantido. Com isso, a ansie- dade é gerada a partir do desejo imenso, do ser humano, de ser aprovado como “vencedor” e da corrida para alcançar a felicidade plena - nunca conquistada.

Em primeira análise, o Instagram - aplicativo de compartilhamento virtual de fotos e vídeos - é acessa- do por uma imensa parcela de pessoas no mundo e faz parte do conjunto de redes sociais que estimulam estilos de vida propensos a desencadear transtornos de ansiedade em seus usuários. Diante de tal recurso, gente de todo o planeta se conecta, observa a vida alheia e faz comparações, entre si, a cada publicação vista. Essa prática gera uma disputa indireta entre os perfis - sobre quem é mais aceito esteticamente, financeiramente e socialmente -, a qual acarreta, no interior de cada indivíduo, o desejo desesperador pela aprovação dos demais. Porém, junto à ânsia pelo “sim” da sociedade, vêm as críticas e, com elas, a insegurança, a baixa autoestima e o colapso mental - causado por tanta pressão.

Em segunda análise, Leandro Karnal - historiador brasileiro - afirma que, no momento atual, o mundo vive na sociedade do “sim” e da competição. Dentro dessa perspectiva, são agradáveis as pessoas que mostram-se alegres, realizadas, bem-sucedidas, sem objeções à vida, pois alcançaram a tão disputada felicidade. Essa visão acarreta a ilusão de que exista uma “linha de chegada” imaginária, que, quando cruzada, significará a ausência de problemas - a conquista de estabilidade emocional e financeira. Com isso, imagens e relatos de pessoas felizes - não necessariamente sinceros - geram angústia e frustra- ção naqueles que ainda buscam chegar ao bem-estar pleno - o qual é apenas uma percepção errônea da vida do outro.

Portanto, os criadores de ferramentas de interação do Instagram, junto a psicólogos - especializados em ansiedade e outros distúrbios relacionados -, devem criar uma campanha, no próprio aplicativo, que incentive o compartilhamento de fotos sem filtros, de relatos sobre situações complicadas e vergonho-sas - já superadas - e de vídeos que mostrem talentos autorais; a qual deve contar também com o engajamento dos maiores perfis dessa rede. Com isso, tal projeto contribuirá para a normalização do “imperfeito”, para a quebra padrões e expectativas e para a aceitação de dias ruins - sem estresse extremo.