Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea

Enviada em 23/07/2020

Na pintura “A Persistência da Memória”, de 1931, Salvador Dalí retrata relógios derretidos para simbolizar a liquidez do tempo e a importância do relógio na vida das pessoas. Saindo da arte e adentrando na realidade, o panorama feito por Dalí pode ser visto na sociedade contemporânea, na qual as pessoas ainda vivem em função do relógio. Esse estilo de vida traz diversas consequências, dentre elas a ansiedade, que mesmo combatida, persiste no cotidiano das pessoas. Sob esse viés, faz-se necessário discutir quais os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea.

É válido, em primeira análise, destacar que um empecilho na luta contra a ansiedade é a concepção da produtividade como base da sociedade contemporânea. Ao tomar como base o pensamento do filósofo Byung Chul-Han, a partir do qual “a sociedade do século XXI é uma sociedade de cansaço, desempenho e autoexploração, na qual vive-se com angústia por não estar fazendo tudo que poderia ser feito”, nota-se que as pessoas do século XXI impõem uma pressão sobre si para que sejam sempre produtivas independente de seu cansaço. Esse anseio por produtividade gera a ansiedade, e se tornou tão naturalizado que, atualmente, é comum ver pessoas ansiosas em todas as idades e em todos os ambientes, inclusive em países desenvolvidos com alta qualidade de vida.

Porém, mesmo que a ansiedade esteja presente em países desenvolvidos, percebe-se também que a qualidade de vida tem grande impacto na saúde mental de sua população. Um ranking da OCDE, em 2019, classificou 140 países com base em sua qualidade de vida, tendo como primeiro lugar a Noruega e, em 62º lugar, o Brasil. Paralelo a isso, no mesmo ano, a OMS divulgou dois rankings: um dos países mais felizes, cujo Noruega ocupa a 2º posição, e o dos países mais ansiosos, cujo Brasil ocupa a primeira posição. Assim, vê-se que esse é um importante, apesar de não ser o único, fator que dificulta o combate à ansiedade no panorama global.

Portanto, medidas são necessárias para resolver o impasse. O Ministério da Saúde, por ter o papel de criar políticas públicas que impactem a qualidade de vida da população deve, sem parceira com o Ministério das Comunicações, Tecnologias e Inovação, criar uma ampla campanha que, por meio de comerciais e propagandas, vise a informação da população a respeito da ansiedade e do excesso de produtividade, alegando suas consequências. Também cabe aos governos municipais investir em políticas públicas, como políticas de segurança pública e lazer, para que haja melhorias na qualidade de vida de seus habitantes. Desta forma, a ansiedade poderá ser combatida efetivamente e as pessoas poderão diminuir o uso do relógio em suas vidas, limitando o panorama de Salvador Dalí à arte.