Os desafios no combate à ansiedade na sociedade contemporânea

Enviada em 29/07/2020

As revoluções, que introduziram a componente velocidade nas relações sociais e de trabalho, a partir dos modelos de produção fordista e toyotista, permitiram ameaças à saúde mental da população. Esse cenário, aliado ao aprofundamento da crise econômica, tem gestado uma epidemia de ansiedade no Brasil, segundo a OMS. Entretanto, esse tema ainda é tabu na sociedade, com o agravante do país perseguir no desmonte de sua estrutura sanitária, reduzindo a cobertura e atendimento do SUS.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que essa dificuldade em se falar sobre saúde mental é fruto de uma concepção histórica, a qual focava apenas nos aspectos físicos. Esse pensamento levava a estigmatização e subestimação das doenças oriundas do psicológico. Tal fato, é explicitado no romance do pré-modernista Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quarema, no qual o Major Quaresma tem sua reputação atacada devido a ter passado um tempo em um hospital psiquiátrico. De modo que, há uma reviravolta em sua vida, com a perda do emprego que era estável e o convívio com familiares, obrigando-o a mudar de cidade para recomeçar. Na mesma obra, sua afilhada morre por negligência dos pais que não admitem tratamento psiquiátrico para a filha que acabou de terminar um noivado de longos anos.

Por outro lado, com o advento da Reforma Sanitária, e posteriormente, criação do SUS na década de 80, foi introduzida a dimensão psicológica nas relações de saúde. Essa preocupação surge com a concepção de saúde integral da OMS, a qual prediz que bem-estar envolve saúde física e mental. Todavia, as sucessivas reduções no orçamento público no setor, capitaneadas pela aprovação da Lei do teto dos gastos e uma concepção ideológica de saúde como gasto público, têm desestruturado as políticas públicas de saúde mental no país. Assim, para economizar, há reduções do dinheiro para a área, ocasionando uma redução profissional, e até, exclusão de psicólogos e psiquiatras das Equipes Multidisciplinares de Saúde da Família, como apontado pelo Conselho Nacional de Saúde.

Nesse sentido, fica claro, portanto que para vencer a ansiedade no país, é preciso primeiro se falar da problemática de modo transparente na sociedade. Isso pode ser possível, a partir de campanhas do Ministério da Saúde, com campanhas publicitárias na TV, de modo a conscientizar os brasileiros sobre a importância de se procurar ajuda em caso de dores na alma, como colocado no romance de Clarice de Lispector. Ao mesmo tempo, faz-se necessário a revogação imediata do teto de gastos pelo Congresso Nacional, de modo a permitir uma recomposição e incremento nos recursos de saúde para restruturar a Política Nacional de Saúde Mental. Essa ação permitirá, por exemplo, contratar novos profissionais, restaurando e ampliando a cobertura de saúde mental no território nacional.